“O senhor doutor já teve ocasião de ver que espécie de gente é o povo deste país, e mais estamos na capital do império, quando no outro dia passou à porta do Século, aquela multidão à espera do bodo, e se quiser ver mais e melhor vá por esses bairros, por essas paróquias e freguesias, veja com os seus olhos a distribuição de sopa, a campanha de auxílio aos pobres no inverno, iniciativa de tão singular beleza, como escreveu no telegrama o presidente da Câmara do Porto, de boa lembrança, e diga-me se não valia mais deixá-los morrer, poupava-se o vergonhoso espectáculo do nosso mundo, sentam-se na berma dos passeios a comer a bucha de pão e a rapar o tacho, nem a luz eléctrica merecem, a eles basta-lhes o caminho que vai do prato à boca, e esse até às escuras se encontra.”
Não é Portugal, 2011, com um Governo cego nos cortes, de mão estendida à Europa de Merkel e Sarkozy, que por sua vez a estendem aos especuladores. Mas podia ser. Trata-se de um excerto de um livro publicado em 1984, retratando uma situação passada em 1936, de seu nome «O Ano da Morte de Ricardo Reis», de José Saramago. Os anos, séculos passam, mas tudo se mantém. «Falta cumprir Portugal».
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