Se gostaste do 12 de Março então não te desiludas muito com o 15 de Outubro

21 Set

Os espanhóis lançaram o mote e a malta lá anuiu, afinal a luta tem de ser europeia. Nos dias que correm as batalhas locais têm pouca influência, principalmente quando falamos de finança global ou de instituições europeias. Ainda assim, esta tal europeízação da luta obedece a critérios muito espanhóis ou não fosse o 15 de Outubro a data que marca o meio ano que passou desde que a cidadania tomou a Puerta del Sol a 15 de Maio. Mais, como se não bastasse o simbolismo da data, a malta aqui do lado conseguiu também impingir o seu nome e lá se vai então ordeiramente defender essa tal democracia real.

Que se enganem aqueles que acham que isto é um apelo à desmobilização, longe disso. Também não é uma crítica à emergência dos novos (novíssimos) movimentos sociais, sou um entusiasta apoiante. Este texto pretende ser apenas um convite à reflexão dado que tudo o que de forte, simbólico e empolgante se construiu nos últimos tempos corre o risco de se transformar em nada. O que é uma pena, um desperdício de oportunidade e uma desilusão.

Já há alguns meses atrás havia vaticínios que a montanha iria parir um rato. Era uma possibilidade, sem dúvida, mas não uma certeza.   Não tem de ser assim e nem tudo estará perdido nesta fase do campeonato. Houve pequenas vitórias nestes meses. Por exemplo a entrada fulgurante do tema da precariedade na agenda política e na comunicação social. E também a entrada de novos (e velhos que entretanto tinham desmotivado) activistas no palco social. Contudo, pelo andar da carruagem o 15 de Outubro e os seus dias seguintes arriscam-se a ser um fiasco. Em condições normais seria sempre difícil manter um tal nível de mobilização. O contexto é muito diferente daquele vivido no início deste ano e por outro lado o efeito surpresa/novidade já passou. Mas não são apenas as condições externas que indiciam o fracasso, a própria dinâmica do movimento não tem sido a melhor e foram/têm sido cometidos vários erros, uns por acção, outros por omissão e outros ainda por inércia ou inépcia. O que sobra do 12 de Março e em parte do movimento das acampadas começa a pisar a fronteira do clássico movimento de picar o ponto, sintoma de que não se sabe muito bem o que fazer. Há também uma certa influência não muito positiva do velho mivimento social face ao novo. Em vez de ser o novo movimento social a trazer ar fresco ao velho, tem-se assistido ao contrário com o novo a adquirir certos vícios e maus hábitos do velho. Mas o pior nestes casos nem é o risco de não acontecer nada, pior que isso é o risco da contraproducência, avaliado em desgaste de activistas, em desmoralização face a resultados inexistentes e em descrédito do movimento.

Na minha opinião, e agora referindo-me exlusivamente ao 12 de Março, há três dimensões importantes a analisar:  a orgânica, a táctica e a programática. O primeiro plano é talvez aquele que tenha falhado mais. Não saiu organização do 12 de Março que conseguisse aglutinar muita gente e ter uma representatividade nacional. As lutas fazem-se muito na área da comunicação, mas também se fazem com gente na rua com capacidade de trabalho, de mobilização e de representação. Por vários motivos a coisa não conseguiu nascer e quando passado o furor da manifestação se decidiu criar o M12M o momento já tinha passado e não se conseguiu reunir mais que uma dúzia de pessoas, o que convenhamos para uma manifestação daquela dimensão é manifestamente ridículo. Por aqui entramos na segunda dimensão, a táctica. Deixar passar demasiado tempo até se criar a organização foi terrível. Esse projecto não seria fácil em condições nenhumas mas podia ter sido melhor gerido. Bastava preparar a estratégia para o dia seguinte, apresentar uma proposta, propor um caminho, dar trabalho às pessoas para que quando se saísse da manifestação muita gente pudesse estar em sintonia e extremamente motivada para continuar. Perderam-se os momentos certos e desperdiçou-se imensa energia e potencial.

Até aqui creio que quase todos estejam de acordo. O que lá vai já pouco importa e interessa construir o futuro. Prioritário será reforçar a organização, alargar, crescer, incluir, numa postura humilde de quem estabelece pontes e não de quem constrói muros. A dimensão porventura mais polémica será a terceira, a programática. O que é que andamos cá a fazer? O que é que queremos conquistar? Fala-se apenas de precariedade ou inserem-se outros temas? São questões que seria importante responder. Não vou entrar para já por aí, apesar de ter a minha opinião sobre o assunto. O texto já deverá estar a demasiado pesado e não se pode responder assim como quem não quer a coisa a estas questões. Fica o apelo à reflexão e acima de tudo o apelo a que não se desmobilize perante os próximos cenários pouco animadores.

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