From Coimbra with love – a República Boa Bay Ela

7 Set

Passei este fim de semana em Coimbra na república Boa Bay Ela, casa onde vivi durante o tempo em que estudei naquela Universidade. Regressar a locais que foram muito nossos é sempre um prazer e foi com especial orgulho que revivi o espírito de uma casa que apesar do tempo e das mudanças de gerações continua com uma força e uma presença apreciáveis. Da ementa do fim de semana constavam vários eventos, dois dos quais de enorme destaque. Sábado à noite houve clássicos brasileiros liderados pela voz da Diana e acompanhados pelo Guilherme na guitarra e pelo Renato na percussão. O reportório foi o habitual nestas andanças, ouviu-se Chico, Caetano, Elis, Vinicius e até um coro algo desafinado no final para a belíssima Pra não dizer que não falei das flores do Geraldo Vandré.

Ao longo do fim de semana, foram 11 horas no total, houve também a projecção da fantástica série Anos Rebeldes, um testemunho brilhante do período da história brasileira de 1964 a 1979. A série conta a história de uma geração que viveu as vicissitudes de uma época muito conturbada da história brasileira. Aborda o idealismo daquele tempo, fala das passeatas, do movimento estudantil, da luta armada e do exílio. Sempre acompanhada pela banda sonora da época, como por exemplo com O Bêbado e a Equilibrista a surgir quando se dá a amnistia dos exilados, e com um romance de pano de fundo que pode ser resumido como a batalha entre o idealismo e o individualismo ou se quisermos entre a Pra não dizer que não falei das flores do Geraldo Vandré e a Sabiá do Chico e do Tom. É a história contada pelos perdedores, algo que tem sempre a sua magia, em especial quando se fala de anos 60 e 70.

Lembrei-me ao chegar a casa que a uma dada altura tinha começado a escrever sobre a minha experiência em Coimbra. O texto é demasiado longo e ficou-se apenas pelos primeiros meses. Decidi então deixar aqui algumas partes desse texto, para quem viveu comigo, para quem vive lá agora e mesmo para quem não conhece a república mas que se interesse pelo tema. Fica também o convite para que a visitem quando passarem por Coimbra.

A ideia de viver numa república foi surgindo consistentemente a partir da decisão de ir estudar para Coimbra. Envolvido de alma e coração na política, na JCP, no movimento estudantil e no movimento anti-guerra, fui ouvindo histórias das crises académicas, da contestação à ditadura, das repúblicas como espaço de liberdade e fraternidade, do Adriano e do Zeca. Neste contexto foi fácil decidir que iria viver numa e que a minha experiência iria necessariamente passar por uma destas casas. Na altura, como era militante da JCP, o primeiro contacto que tive foi com o Ninho dos Matulões e com a Ay-ó-Linda, as repúblicas “do PC” de então. A Ay-ó-Linda estava cheia nessa época e o Ninho dos Matulões não era um sítio muito apropriado para se viver, portanto sondei várias pessoas para encontrar outra casa tendo em conta o critério “ser perto da faculdade”. E foi assim que cheguei à Boa-Bay-Ela, acompanhado pelo Saviola e pelo Plim que me ajudaram no processo de integração em Coimbra. Fomos recebidos de forma extremamente hospitaleira pelo David, algo que na altura era novo, mas que mais tarde se tornou parte do meu código genético enquanto repúblico. O David fez-nos uma visita guiada bastante longa, assumindo que eu podia ficar lá, mas sempre com as reservas típicas do “logo se vê”, fica à experiência” ou “não é certo”, mas a contrastar esta aparente dureza e distância com um espírito hospitaleiro e uma atenção enorme. A casa que conheci pela primeira vez era muito bonita e estava bem arranjada. O barco era ocupado naquele tempo pelo Max, o quarto do canto onde bate o sol era ocupado pelo David, o Gabi vivia no quarto da varanda, o Ricardo no seguinte e o Miguel no quarto do Zeca Afonso. Fiquei logo extremamente interessado pelo poema e pela história do Zeca lá em casa, algo que ao longo do meu tempo fui tentando reconstituir junto dos antigos que viveram esses tempos como o Barros Madeira e o Lima Fernandes. Soube por exemplo que tinha sido naquele quarto que o Zeca tinha passado a noite na véspera de gravar o seu primeiro LP O Menino de Oiro e soube também que o poema era uma dedicatória à hospitalidade da Boa Bay Ela, onde o Zeca por vezes ficava vestindo as camisas lavadas dos nossos antigos. O Pedro vivia no quarto da entrada à esquerda e o da direita estava naquele momento em obras dinamizadas pelo João que tinha acabado de se candidatar à república. O Xina que foi candidato e que entrou comigo na casa não estava por lá. Conheci também nesse dia a D. Amélia que foi cozinheira na república durante mais de uma década e o Flocky, um dálmata mítico que marcou várias gerações que era conhecido em toda a cidade e que teve várias honras de jornais locais. Havia também o Diego, um cão d’água descendente de outro cão mítico da casa, o Ziggy, que infelizmente não durou muito tempo e foi vítima de uma morte estúpida.

A segunda pessoa que conheci foi o Miguel que mal me viu meteu imediatamente conversa comigo deixando-me à vontade e convidou-me para me sentar na cave para ouvirmos um vinil e conversarmos. A cave nessa altura estava arranjada com o vinil a funcionar (algo que iria atormentar todas as gerações seguintes) e com os sofás bem dispostos criando um ambiente agradável de fim de tarde. Mais tarde conheci o Pedro na cozinha, onde trocamos algumas palavras antes do meu primeiro jantar na república. Foi um jantar típico da Boa-Bay-Ela daqueles tempos. Muita gente à mesa entre repúblicos, comensais e amigos. Lembro-me do Vitor e do Rui que eram comensais e da Irina que era proposta a comensal. O ambiente foi muito agradável com o Miguel a fazer as honras da minha presença e com um turbilhão de informação cruzada. Toda a gente me contava uma história e toda a gente me tentava explicar o que entendia por república algo que dificilmente se explica e que só com o tempo e com o conhecimento da história da casa se consegue entender. Nessa noite voltei ao Porto, apesar da insistência de muitos para que ficasse.

Uns dias depois voltei de mochila às costas. Cheguei antes do almoço e o David disse para me instalar no quarto vermelho que estava vazio. Foi o que fiz. Nesses primeiros tempos de Coimbra o turbilhão de actividades, emoções e acontecimentos foi tal e tão rápido que me é difícil enquadrar no tempo correcto e com exactidão tudo o que se passou.

Apaixonei-me pela cidade imediatamente. Aprendi a sua história, visitei imensas repúblicas, conheci imensa gente, participei dos seus rituais. Como era anti-praxe não segui os rituais tradicionais mas mesmo assim não deixei de ir à faculdade, aos jantares de curso e aos inúmeros eventos que a chegada a Coimbra oferece do ponto de vista praxístico. Fui baptizado pelo menos seis vezes na Latada violando todos os rituais oficiais e fui apadrinhado por muita gente, uma das quais o Vilar que mais tarde iria tornar-se repúblico.

Uma das minhas grande fixações na época era participar no Conselho de Repúblicas (CR). Tinha ouvido imensas histórias de resistência ao fascismo, de perseguição da PIDE e de actividades subversivas. Entretanto tinha conhecido imensa gente de outras casas que tinham muito prestígio no meio académico e que participavam a fundo no movimento estudantil. 2003 foi um dos últimos anos da recente vaga de luta contra as propinas e Coimbra era o berço dessa contestação. Tudo isto não me passava ao lado como é óbvio, afinal tinha sido a minha principal motivação para ir para Coimbra. Num dos primeiros meses que lá vivi foi convocado um CR na Prá-kys-tão. Massacrei tanto a cabeça a toda a gente que lá me deixaram ir juntamente com o David e com o Miguel. Pouco percebia daquilo pois o CR tem o seu funcionamento e as suas características muto próprias, mas adorei ouvir muita gente a falar com grande experiência e conhecimento do que eram as repúblicas e qual o seu papel na sociedade. A uma dada altura o Miguel pede a palavra e, como eu lhe tinha pedido, pergunta à assembleia se eu podia falar. Na altura ainda não tinha entrado na casa o que me impedia de assumir formalmente as funções de representação, eu sabia disso, mas mesmo assim queria falar. Foi o caos, durante imenso tempo toda a gente emitiu opinião sobre a possibilidade de eu falar ou não. Durou uma eternidade e eu não sabia onde me meter perante tal confusão. Como quase sempre nos CRs a solução chegou pelo cansaço. O Miguel assumiu que eu falaria em nome da casa e assim não haveria nenhuma violação dos estatutos. Já não me lembro o que disse, mas não foi nada de especial, ao fim daquele tempo todo tinha perdido a vontade e a emoção de participar pela primeira vez num CR.

A 4 de Novembro de 2003 fui aceite na casa juntamente com o Daniel e com o João. Tinha acabado de fazer 18 anos, tinha um curso à minha frente e 4 anos de república que foram algo de indescritível. O meu padrinho de casa ficou o Miguel e o meu nome de casa foi indicado pelo Gabi. Ficou Bay-mudar, um trocadilho entre a crença em mudar o mundo e a ideia, pelo menos assim o dizia o Gabi, de eu um dia vir a mudar de ideais.

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5 Respostas to “From Coimbra with love – a República Boa Bay Ela”

  1. tiago 8 de Setembro de 2011 às 12:36 AM #

    como antigo da rápo foi muito boa leitura. abraço

  2. David 9 de Setembro de 2011 às 6:34 PM #

    Lembro-me como se fosse ontem!

  3. Maria João 13 de Setembro de 2011 às 10:09 PM #

    Quando estudava ia várias vezes a Coimbra, principalmente na época da Queima. Coimbra tem o seu encanto e sempre imaginei como seria viver numa República. Deu para imaginar 😉

  4. Francisco 21 de Setembro de 2011 às 7:34 PM #

    Este testemunho é-me familiar…

  5. Manon 24 de Novembro de 2013 às 2:54 PM #

    Este artigo é magico queria poder ler mais sobre esta casa que me adoptou como comensal!

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