Começar de novo

3 Set

A Teoria do Caos diz-nos que o bater de asas de uma simples borboleta pode influenciar o curso natural das coisas em todo mundo com consequências inimagináveis. Não sei se Mohammed Bouazizi tinha conhecimento desta teoria quando, num acto de desespero, decidiu pôr termo à sua vida. Mas a verdade, é que o seu acto desencadeou uma enorme onda de revolta por parte de uma geração que decidiu definitivamente lutar pela sua própria dignidade.

Bouazizi era um jovem tunisino com estudos que vivia do mercado ambulante de hortaliças de forma a sustentar a sua mãe e os seus cinco irmãos. O facto de não ter licença fez com que a polícia o proibisse de vender retirando-lhe a única fonte de subsistência. Cansado de tantas humilhações e da ausência de perspectivas para um futuro melhor, decidiu imolar-se pelo fogo. Antes, deixou uma mensagem no Facebook dirigida à sua mãe com um pedido: “culpe a era em que vivemos, não me culpe a mim.”

Talvez este acto, aparentemente tresloucado, tenha acordado as mentes e os corações de uma geração mais aberta ao mundo, com estudos e onde o acesso à Internet fez a diferença. Uma geração cansada de regimes ditatoriais e corruptos e de sociedades demasiado desiguais, onde a liberdade não passava de uma utopia.

Aquilo que muitos pensaram ser protestos meramente ocasionais, facilmente controláveis com o recurso à repressão, arrastaram-se à grande maioria dos países do Norte de África e Médio Oriente com uma força nunca antes vista que levou ao derrube de Ben Ali na Tunísia e Hosni Mubarak no Egipto e à fuga de Abdullah Saleh, líder do Iémen, para a Arábia Saudita.

O seu sucesso constituiu uma inspiração e criou um sentimento de solidariedade que não conheceu fronteiras para surpresa da grande maioria dos líderes mundiais.

A “Primavera Árabe”, como já é conhecida, arrastou-se também à Líbia do todo poderoso Muammar Khadafi, no poder há 42 anos. As reivindicações eram comuns: mais liberdade, mais democracia, mais respeito pelos direitos humanos e menos pobreza. No fundo, tudo se consubstancia numa única aspiração: o desejo de tomar o destino pelas próprias mãos e a vontade de poder decidir o próprio futuro.

O caso da Líbia talvez tenha sido o mais preocupante do ponto de vista humanitário visto que Khadafi nunca se inibiu de ordenar às suas forças para saquear e bombardear indiscriminadamente as cidades onde a revolta se começou a formar, numa acção que quase roça o genocídio.

Perante tal brutalidade era inadmissível que a comunidade internacional não agisse, apesar de nos primeiros tempos ter feito vista grossa ao fenómeno que começava a emergir no mundo árabe. A Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU legitimou a intervenção externa que se seguiu com vista a depor o líder líbio. Uma intervenção que não está isenta de erros graves e que nem sempre esteve bem.

Mas hoje, vários meses depois, a saída de Khadafi é um dado certo e a Líbia tem uma nova oportunidade para se reerguer e virar a página. Os desafios são imensos, sobretudo depois de sabermos que neste conflito perderam a vida cerca de 50 mil pessoas.

Pouco a pouco vamos conhecendo uma face ainda mais dura do anterior regime, com a revelação de vários crimes contra a Humanidade onde constam torturas, violações, assassinatos em massa e desaparecimentos forçados. A descoberta destas monstruosidades pode levar a indesejáveis excessos dos rebeldes que têm que ser refreados o quanto antes.  Para tal é essencial a reforma do sistema judicial líbio, que respeite os princípios do Direito Internacional e a realização de julgamentos justos e humanos, se necessário através do Tribunal Penal Internacional que já emitiu mandatos de captura contra alguns dirigentes do regime de Kadhafi.

Só assim será possível uma reconciliação plena que ajude a Líbia a construir uma democracia que seja de todos e para todos. O segundo passo, passa por reforçar a economia, desenvolver o país e assumir uma voz própria no cenário internacional.

Este não será o “fim da História” que Francis Fukuyama teorizou e onde defendeu a prevalência total das democracias e do Estado de Direito. O próprio já o admitiu recentemente em Portugal, quando participou nas “Conferências do Estoril”. Os próximos tempos serão conturbados e marcados por tensões a vários níveis. A transição não será fácil e será marcada por vários avanços e recuos.

No entanto, é indiscutível que o acto de Mohammed Bouazizi naquele dia 17 de Dezembro de 2010 trouxe uma nova esperança a milhões de jovens que decidiram sair para a rua movidos por uma enorme fome de liberdade. Naquele dia, abriu-se uma nova janela de oportunidades que se estendeu as vários países. Neste momento, cabe à Líbia decidir o seu próprio futuro, com prudência e cautela, mas sem atraiçoar milhares de pessoas que deram a vida por uma causa.

A actuação dos poderes ocidentais, nomeadamente da União Europeia, é também ela essencial neste processo. O Ocidente deve, de uma vez por todas, assumir o combate na primeira linha pelos valores democráticos, abandonando a política de “um peso e duas medidas” e as várias ambiguidades que têm caracterizado as suas posições externas.

A solução passa por ajudar a Líbia a seguir um caminho próprio, recusando a tentação de a tornar num simples protectorado à semelhança do Iraque, e ajudar os milhões de manifestantes que persistem em outros países, nomeadamente na Síria.

Há tempos, um resistente sírio disse a um jornalista internacional o porquê de não abandonarem os protestos. “Nós não temos dinheiro, não temos liberdade, não temos direitos nem temos segurança. Mas também já não temos medo!”

Não é altura de nos escondermos e sermos cúmplices. Os tempos que vivemos exigem que se tomem posições corajosas. Façamos a nossa parte.

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