Uma Buffett(ada) de luva branca, e quem pagou essa mochila fui eu!

19 Ago

“Stop Coddling the Super-Rich” publicado dia 14 no New York Times, é um interessante artigo de opinião do multimilionário Warren Buffett. Dos mais esquerdistas que o detestam, ao maiores gurus liberais que o  idolatram, este investidor extremamente bem-sucedido, e pelos vistos um tipo simpático, veio dizer aquilo que comunistas, bloquistas e outros istas mais à esquerda, têm dito desde que existe alta finança – que é escandaloso a forma como os mais abastados são tratados face à restante população, especialmente em épocas de crise em que muitos sacrifícios são pedidos. Dito assim parece até simplista, mas vamos aos factos.
Buffett, diz que enquanto a classe média vai pagando a factura da crise, a malta em Washington continua extremamente empenhada em não chatear os mais mais ricos – (a.k.a os mais poderosos). Isto porque se baseiam no mito de que, se mais sacrifícios fossem pedidos aos mais endinheirados, estes deixariam de investir no País. Ora, Buffett diz-nos que isso é uma grande história da carochinha (a.k.a. uma treta do caraças), porque mesmo antes da massiva desregulação de mercado iniciada por Clinton, num período em que os impostos para as grandes fortunas eram muito mais elevados do que agora, Warren e outros milionários não deixaram de investir, antes pelo contrario! Não sou eu que o digo, é ele.
Mas o mais interessante, é a constatação de que o lucro obtido através do trabalho é muito mais taxado do que o lucro obtido através de especulação financeira. Imaginemos que o meu caro leitor é um comum cidadão americano. Ora, o lucro que obter nas oito horas de trabalho diário, apesar de pouco significativo, será muito mais taxado do que o lucro obtido por um indivíduo que no início de uma manhã compra uns milhares de acções de uma empresa em queda no mercado, e que depois as vende na parte da tarde quando estas já estão a subir, fazendo um encaixe significativo sem sequer levantar o rabo do sofá. Basta-lhe apenas um laptop e uns milhares para investir. Se o próprio Warren Buffett acha isto extremamente injusto, ele que é um dos maiores investidores mundiais, que hei-de eu pensar, que não tenho uns milhares para investir e que não me deixam trabalhar a partir de casa, confortavelmente sentado o meu sofá!
Ora, Buffet diz também que nem todos os “super-ricos” se opõem a um aumento de impostos, e que essa deveria ser uma medida adoptada de forma a aliviar um pouco o fardo sobre os que mais contribuem para pagar uma crise que eles próprios não criaram (a.k.a. a classe media). Diz-nos também que em geral muitos destes mega-hiper-ricos são essencialmente pessoas decentes – eu, ao contrario de Francisco Louça, também sempre pensei o mesmo. A ideia de que quem é rico é um pérfido vilão e de que quem é pobre é um santo sofredor, faz tanto sentido quanto a doutrina por estes dias propalada a respeito da violência em Londres, e que nos diz que o que assistimos terá tido origem no descontentamento dos mais pobres! Pobre, meus amigos, é quem trabalhou toda uma vida e que nunca conseguiu viver condignamente e sem necessidades. Os únicos pobres que participaram nos saques que todos vimos em directo, foram apenas os pobres… de espírito

Esta semana temos também vindo a assistir em directo de Madrid a uma serie de pequenos episódios, que mostram como é ridícula a intolerância quando se extremam posições. Que o Papa tenha ido a Madrid, isso é lá com ele. Que muita malta jovem tenha trocado o descanso de umas boas férias, pela participação numa série de missas repletas de alguma histeria, e, muitas canções ao som de guitarras acústicas balanceadas pelo abanar de muitos lencinhos coloridos, isso é-me totalmente estranho e indiferente. Que o governo de Espanha tenha financiado isto, como financia normalmente qualquer outra festividade, parece-me também absolutamente normal. O que me parece juliapinheiresco são os argumentos das manifestações Anti-Papa! Ontem estes indignados laicos gritavam para a malta dos lencinhos e bonés coloridos “essa mochila (uma mochila oferecida aos participantes com material a ser usado durante as missas e afins) fui eu que a paguei!”. E isto é tão mesquinho e tão ridículo, que eu vejo-me na necessidade de fazer uma conta tão simples: O governo espanhol vai gastar 5 milhões para organizar este evento onde são esperados cerca de um milhão de participantes (a malta colorida e outros tantos que irão assistir). Ora, se cada uma destas pessoas gastar nem que seja uma vez 5 euros, o investimento tem desde logo o seu retorno assegurado.
Estou desde já a imaginar no próximo S. João uma manifestação protagonizada por todos aqueles que não gostam de festas, onde se ouvirão gritos de revolta em direcção a todos aqueles que tragam o martelinho na mão: “Esse fogo de artifício, fui eu que o paguei”.
Esta malta está a fazer tanto pela causa laica quanto o Fernando Nobre fez nos últimos tempos pelos movimentos de cidadania!

 

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2 Respostas to “Uma Buffett(ada) de luva branca, e quem pagou essa mochila fui eu!”

  1. Cláudia 20 de Agosto de 2011 às 4:07 AM #

    Leio com regularidade o que por aqui se vai escrevendo. Queria deixar duas notas: em primeiro (e começando pelo fim) é injusto dizer-se que o Fernando Nobre nada fez pela cidadania. Admito que correu atrás de um lugar ao sol, o que não implica que enquanto cidadão não tenha continuado a lutar pelas causas que (independentemente do PSD, do bloco) lhe interessem. Em segundo lugar, gostaria ainda de dizer que percebo perfeitamente a posição das pessoas que se consideram “anti-papa” – ver o seu estado (ou seja, eles próprios) a gastar uma fortuna em tempo de crise com algo em que não acreditam é revoltante. Será por aí que os protestos fazem sentido.
    Boa continuação

Trackbacks/Pingbacks

  1. Berlusconi, Israel e Passos Coelho « Standard's & People, Pá! - 3 de Setembro de 2011

    […] vistos não basta o que acerca disto escreveu um dos maiores liberais mundiais e que recordei aqui a semana passada, queria deixar apenas uma pequena reflexão. Há uns anos atrás uns gurus defendiam que a grande […]

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