O homem que gostava de cães

3 Ago

Leonardo Padura já tinha provado os seus méritos literários na fantástica série do polícia cubano Mário Conde – só mesmo batido pelo mítico Pepe Carvalho embora Padura ainda tenha tempo para muito mais o que já não é infelizmente o caso de Montalbán – mas faltava-lhe ainda um grande romance. Já o tinha tentado uma ou outra vez com alguma consistência – O romance da minha vida não lhe correu mal – mas estava ainda longe por exemplo de Vargas Llosa com o seu épico livro A guerra do fim do mundo ou com o brilhante Conversa na catedral. O homem que gostava de cães não é um livro de génio, esses são raros, mas é sem dúvida o melhor romance que li nos últimos tempos. Um profundo trabalho de investigação muito bem escrito e apresentado com todos os bons ingredientes do romance histórico.

Padura conta-nos a história do exílio de Liev Davídovitch, aka Léon Trótski, e de toda a trama e conspiração Estalinista que culminará com o assassinato do dissidente. Ao longo das suas mais de 600 páginas o livro sob três pontos de vista – do próprio Trotski, do seu verdugo Ramón Mercander e de um escritor cubano que por acaso depara-se com esta história – que em parte será o próprio autor – reflecte sobre a história do último século. Fiz algumas pesquisas rápidas sobre a vida e a morte de Trótski e para já tudo o que encontrei – nomes de personagens incluídos – coincide com o que li no livro o que me dá a entender que o livro é bastante fiel pelo menos ao que se sabe hoje sobre o assunto.

O espírito não é original, principalmente no seio da literatura hispânica, mas nunca é demais ler sobre o assunto. Aborda as ilusões e desilusões dos idealistas de esquerda do séc. XX. Daqueles que combateram pelo lado republicano na Guerra Civil Espanhola acreditando que todas as traições e fuzilamentos eram um mal necessário para se vencer a guerra, dos que cortaram cana com toda a convicção para ajudarem a Revolução Cubana, dos que seguiram a grande pátria do socialismo e a sua propaganda, dos que acreditaram que qualquer dissidente era um agente provocador do imperialismo (alemão, britânico ou americano), dos que mataram e morreram pelo homem novo, pelo rumo imparável da história onde todos eram peões da Revolução e que em nome dela tudo era legítimo e permitido.

Sem querer desvendar muito do que li para não retirar esse prazer a quem o queira ler, o livro tem detalhes deliciosos. Fala da veia estalinista da Passionária, da épica capacidade de resistência à tortura de Andreu Nin – líder do POUM – , dos crimes de Trótski, das sucessivas acções de limpeza interna protagonizadas por Estaline, fala de Rivera e Frida Kahlo, da criação da IV Internacional e da Cuba pós-revolucionária. Um excelente livro para quem se interessa pelo séc. XX e principalmente pela história dos sonhos e das utopias.

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