A4? A8? Ba2?

20 Jul

Nesta estreia, já agendada há duas semanas mas entretanto retardada é verdade, são várias as pontas, soltas ou não, que pretendo aqui inscrever. Pensamentos, impressões e sentimentos da última vintena de dias, até a escrita encarrilar e as palavras encontrarem o seu curso natural.

Estive em Paris no início do mês. Um fim-de-semana prolongado, de trabalho é certo, mas as obrigações não nos tornam invisíveis e insensíveis ao que nos rodeia. França parou com a libertação de DSK. Nas televisões, em directo de manhã à noite, com reportagens, notícias, debates, análises e opiniões. Nos jornais, todos dedicavam várias páginas ao assunto, ou affair, com presença obrigatória nos editoriais.

Por cá, discutia-se a morte de Angélico, com o mesmo formato tablóide. Autofagia do jornalismo, direi eu. Usar, gastar até à exaustão, enjoar, repetir até não haver nada mais para dizer. E ignorar o resto.

Dirão que os franceses querem mesmo saber se DSK forçou a tal funcionária do hotel ou se o sexo foi consentido. Ou que os portugueses pelam-se por esclarecer se Angélico levava o cinto posto ou não. Aceito que sim, mas não é preciso elevar as duas situações a quase assunto de Estado. Porque com o destaque que é dado, as audiências quase se vêem na obrigação de saberem, também elas, tudo o que se passa, e entramos num processo de pura bisbilhotice.

Não digo que nos cinjamos apenas a debater a crise, a mil e uma reportagens iguais sobre como poupar no supermercado, a notícias bombásticas (?) sobre gastos em combustíveis em carros do Estado e secretárias e férias e etc. e tal. Mas é preciso perceber que estamos numa crise muito grave e não podemos tentar disfarçá-la com assuntos do coração, para afastar as atenções do que (não) anda a ser feito. A começar por nós, que facilmente deixamos que nos coloquem a pata em cima. E que aceitamos isso mesmo como natural.

Com papas e bolos se enganam os tolos. A pão e circo. Dispenso papas. Dispenso bolos. Dispenso pão. Dispenso circo. Exijo apenas respeito. Porque não vou trocar um Audi A8 por um Audi A4 para combater a crise, tal como o iluminado arquitecto Saraiva sugeriu no seu iluminado editorial no Sol.

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