As voltas da história

19 Jul

Quem se interessa por ciências sociais sempre terá momentos dúvida sobre que abordagem utilizar ou que a teoria recorrer no momento de analisar determinada questão. Por exemplo, quem for um seguidor dos modelos mais positivistas ligados à teoria da escolha racional, terá um posicionamento sobretudo prospectivo, que nas entrelinhas nos diz que sobre a generalidade dos temas já foi escrito tudo o que havia de ser escrito e que já conhecemos o suficiente sobre os acontecimentos passados. Noutro extremo, surgem por exemplo os adeptos da teoria crítica, que a partir do materialismo histórico e da sua tríade processual, concebem a realidade social como um movimento de conservação, de mudança, de reprodução e de transformação que fazem da história um continuum. Concordar com este devir histórico não significa necessariamente um patrocínio do marxismo, mas confesso que, pessoalmente, admiro mais esta concepção circular da história. Agora, face à teoria da escolha racional, a diferença é fundamental: para se antecipar o futuro, há que primeiro rever a história.

Na ciência económica, a mais reconhecida das ciências sociais, a abordagem é usualmente mais próxima da primeira hipótese, o que implica a modelação matemática na análise de problemas do que o traçar da história de determinado elemento. Sucede que uma leitura atenta da história poderá colmatar determinadas falhas, desde logo porque a modelação de determinado fenómeno pode negligenciar variáveis que fazem toda a diferença. A questão é que não gastamos o tempo suficiente com a história. De outra forma, o contexto é diferente, algumas cambiantes são novas, mas uma crise como a actual não é totalmente nova. De outra forma, esta crise não é distinta de todas as outras. Contudo, novamente não retiramos as devidas lições das anteriores, não aprendemos com os erros, somos aliás insensatos, por muito improvável que tal possa parecer.

É aqui que entra a história económica. Esta disciplina tem evidenciado que, ao contrário do que se pensa, existem muitas similitudes com o passado quando se debate determinados fenómenos, o que confere uma importância acrescida a uma disciplina que tem evoluído, também, pelo emprego de novos métodos e técnicas de análise de dados. Portanto, aquilo que é apresentado como novo, se calhar aconteceu inúmeras vezes mais noutros momentos, o que varia é o entendimento existente. Ora, uma elaborada análise de séries temporais extensas pode guiar-nos até uma inferência tragicamente simples: nós nunca aprendemos e cometemos os mesmos erros ano após ano. Posto de forma simples, isto significa que pode estar-se a cometer os mesmos lapsos que levaram à estagnação de determinada economia, mas porque desde logo a geografia é diferente, então a realidade é diferente e, pensamos nós, tudo se resume a um problema de performance ou simplesmente estamos focados em causas erradas ou numa análise incompleta nos factores que originam tal acontecimento negativo. Isto para referir os fenómenos de contágio, que geralmente demoram a ser aceites como possibilidade. Por fim, falham os indicadores de alerta, que são sempre tardios e revelam-se quando se está inundado nas dificuldades, uma das principais críticas associadas aos economistas.

Serve este escrito para reintroduzir o magistral livro This Time is Different: Eight Centuries of Financial Folly, de Carmen Reinhard e Kenneth Rogoff (edição de 2009, sinopse disponível aqui). Ainda que do povo, este blogue encarna a figura de uma agência de rating, pelo que esta será uma leitura apropriada, desde logo porque traça a história do débito e do incumprimento através da investigação empírica de um extensíssimo conjunto de dados a uma escala global e, pasme-se, confere adicionalmente uma leitura entusiasmante. Quando vos disserem “desta vez é diferente”, desconfiem. Primeiro, é mesmo preciso realmente apreender as causas reais de determinado problema porque geralmente são discutidas e apresentadas meras hipóteses.

Por último, duas indicações mais. Para quem alinha nesta visão da história como ciclos e contraciclos sucessivos, em que existem fases de crescimento e fases de recessão, momentos de expansão da economia e momentos de recessão, então gostará certamente da proposta relativa aos ciclos de Kontratiev, que aliás tem já inúmeras formulações contemporâneas. Tempo para uma outra indicação, mais concretamente um exercício. Para Portugal, várias vezes se tem dito que já ultrapassamos momentos de crise de elevado nível de severidade. Referem-se datas como 1560, 1605, 1837, 1847, 1892, 1977, 1983-85, 2011. Destas, quantas se reportam a problemas com a dívida soberana do país? Surpreendam-se.

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