Cabo Verde – 36 anos de pequenos milagres a caminho do desenvolvimento

6 Jul

Fez ontem 36 anos desde que Cabo Verde se tornou independente de Portugal a 5 de Julho de 1975. A data é sempre celebrada com grande espírito pelos Cabo-verdianos quer estejam no país ou na diáspora. A razão deste festejo é simples: foi o fim de 500 anos de colonialismo português que deixou o arquipélago às portas da independência como um dos países mais pobres e menos desenvolvidos do planeta. Infelizmente há poucas imagens desta época e também não há muita coisa escrita seja em biografia ou ensaio* seja principalmente em romance histórico. Historiadores precisam-se, até porque muita da geração da Guerra Colonial e da Independência** já está a desaparecer.

Cabo Verde faz parte da Macaronésia juntamente com os Açores, a Madeira e as Canárias.  Este grupo tem em comum algumas características importantes. São arquipélagos de origem vulcânica, o clima varia entre o sub-tropical e o tropical e eram ilhas desabitadas até à chegada de Portugueses e Espanhóis. Este último aspecto é de vital importância para se entender a evolução social, política e cultural destes territórios.

Ao contrário dos restantes arquipélagos, Cabo Verde serviu de plataforma de tráfico de escravos para o Novo Mundo, dada a sua excelente localização geográfica. Este facto é aquele que em primeira análise vai trazer a africanidade a estas ilhas. Se há país onde o tráfico de escravos está umbilicalmente relacionado com a construção da nacionalidade, esse país é Cabo Verde. Durante séculos, inúmeros africanos provenientes principalmente da Guiné e do Senegal chegaram ao arquipélago para serem vendidos a comerciantes que os levariam para a América Central e do Sul. Devido ao clima seco e árido, Cabo Verde não necessitava de muita mão-de-obra escrava para trabalhar e apenas uma pequeníssima quantidade de africanos era destinada a ficar a trabalhar para as famílias dos colonos ou em pequenas actividades agrícolas. Contudo, um número razoável de escravos consegue ter a sorte e o engenho para escapar e é a sua fixação no interior de Santiago sob condições muito duras, que irá dar o primeiro gene da cabo-verdianidade. Foram ironicamente chamados pelos portugueses de badius (vadios) por não quererem trabalhar e hoje é orgulhosamente por esse nome que são chamados os habitantes do Sotavento (as 4 ilhas mais a sul: Santiago, Fogo, Maio e Brava). Escrevi aqui algo mais sobre a história do interior de Santiago.

Se Cabo Verde estava na cauda do mundo nos anos 70, hoje a situação é bem diferente. O arquipélago galga degraus consistentemente em todos os indicadores e atinge lugares bem honrosos até em muitos deles, como por exemplo o 45º em percepção de corrupção, ultrapassando nesta matéria vários países da UE. Em 2008 atingiu pela primeira vez o nível de país de rendimento médio e é incomparavelmente o país mais desenvolvido da região ocidental africana.*** Costuma-se dizer que a sorte de Cabo Verde é não possuir recursos naturais importantes, nos pobréza ké nos riquéza, o que permitiu que Cabo Verde tenha sempre passado ao lado de grande turbulências. Mesmo a Guerra Colonial passou quase despercebida em Cabo Verde, não fosse um ou outro episódio menor, e uma tentativa falhada de desembarque de guerrilheiros do então PAIGC (pouco esclarecida mas de acordo com a mitologia, as armas ainda estarão algures numa gruta). A ausência de recursos naturais fez com que o país apontasse baterias para o investimento em capital humano. Também neste aspecto Cabo Verde fez progressos notáveis. A título de exemplo, algo que me chamou a atenção foi viajar no interior de Santiago e ver que o único edifício com bom aspecto nestas aldeias, para além das igrejas, eram as escolas, muitas delas novas em folha num contraste gritante com a restante envolvência. Hoje sabe-se que o investimento em capital humano não é por si só um factor de desenvolvimento, é preciso muito mais. E por isso o país padece de problemas crónicos de desemprego (acima dos 20% embora haja uma certa componente de trabalho informal) e tem assistido a um crescimento exponencial do número de desempregados licenciados.

A semana passada assisti a uma conferência sobre a Parceria Especial entre Cabo Verde e a UE com a presença do embaixador europeu no arquipélago, o catalão Coll I Carbo. Foi um evento agradável, e apesar do pouco público presente, quem estava era profundo conhecedor e apaixonado pela cultura do país, o que permitiu um debate interessante. No final, entre outras, levantei uma questão que me intriga desde que conheci o arquipélago, como vê o futuro da relação entre Cabo Verde e a UE? A resposta foi a esperada neste tipo de ocasiões, o embaixador recorreu a Prodi e citou a célebre frase everything but institutions. Trocado em miúdos, o orador entende que Cabo Verde pode caminhar no sentido de entrar por exemplo no espaço Schengen e no mercado único mas que nunca haverá espaço para Cabo Verde nas instituições europeias.

Independentemente da sua relação com a UE e do seu sucesso recente enquanto país Cabo Verde tem alguns problemas complicados. Para além do já referido problema do desemprego, o país tem dificuldade em aproveitar a sua extensa zona económica exclusiva e é frequentemente vítima de abusos por parte de embarcações estrangeiras. Mais, o arquipélago tornou-se um ponto importante das rotas de tráfico de droga e até se tem ouvido falar ultimamente em tráfico de armas. A isto está também associado o aumento da criminalidade violenta, principalmente na Praia, o que contrasta em absoluto com a cultura tradicional deste povo. Cabo Verde tem ainda muito caminho para percorrer, mas estou certo que o continuará a trilhar com consistência. E porque falar da independência de Cabo Verde sem referir Cabral pode parecer heresia aqui fica a sua homenagem.

* Recentemente foi publicado um livro da autoria do investigador do CES, Julião Soares de Sousa, que afirma ao contrário do que se acreditava o PAIGC terá sido fundado em 1959 e não em 1956. Questões como esta estão ainda marcadas de muita imprecisão e ainda está por contar a verdadeira história do assassinato de Amílcar Cabral.

** A 29 de Junho celebrou-se também o 50º aniversário da fuga dos estudantes da Casa do Império, um dos momentos mais simbólicos da luta pela independência das ex-colonias. Entre estes estudantes estava por exemplo Pedro Pires, Joaquim Chissano e Francisco Van-Dunem.

*** Todos os dados aqui apresentados são baseados em relatórios de organizações internacionais embora tomei a liberdade de não usar referências pois torna o texto demasiado emperrado e académico para este formato.

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Uma resposta to “Cabo Verde – 36 anos de pequenos milagres a caminho do desenvolvimento”

  1. Lasf 10 de Julho de 2011 às 9:45 PM #

    Pois é nisto que somos bons…Ou eramos bons?

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