Independentes

5 Jul

Eça e os Indenpendentes

Estamos numa maré de atenção ao simbólico. O simbólico é importante e usualmente o recurso ao mesmo não surge por acaso. O simbólico é ainda mais importante numa altura de aparente crise de valores. Portanto, um saque aos contribuintes assume maior ou menor destaque ou implica maior ou menor aceitação consoante o enquadramento simbólico efectuado. Para o bem e para o mal, a carga simbólica de determinada acção pode acarretar consequências e com essas coisas se ganham e perdem eleições.

Acresce que a generalidade de nós é pouco dada a surpresas e gosta de saber com o que conta, mesmo que seja manifestamente mau. Assim se explicam hábitos instituídos que provavelmente serão mesmo difíceis de alterar. Por exemplo, para alguém que desempenha o cargo de ministro, não será importante a sua própria avaliação. Será uma questão de maior ou menor ruído na imprensa e de forma temporária apenas. Nas redacções e na imprensa em geral, há cada vez menos memória. No final, pelo menos um regresso à ocupação profissional de partida é garantida. Aliás, as pessoas são de tal forma cruciais para tantas organizações que as mesmas se limitam a esperar pelo regresso. É a flexisegurança à portuguesa, que como tantas outras coisas, é só para alguns. Nada de mais, há exemplos bem mais dramáticos. Por exemplo, o comum dos cidadãos portugueses sabe de antemão que poderá trabalhar se sol-a-sol toda a vida que, só por muita sorte ou apenas por mero acaso, não deixará de ser pobre. Está nos manuais. Em situações de crise, pode contar que haverá pobreza para redistribuir e que, com maior ou menor grau de simbolismo, terá de pagar uma série de desvarios. Essa é a vida real que o simbólico pretende impressionar tanta vez.

Ora, existem campos em que é atribuído valor simbólico a determinada iniciativa e tal atribuição não faz sentido. Portanto, nalgumas matérias o simbolismo deve ser de valor zero para que, objectivamente, a multiplicação daí resultante ser nula também. Um exemplo disto é a muito falada nomeação de “independentes” para o cargo de ministros. Temos agora vários independentes no governo e estamos felizes por isso, é, como dizem, um “sinal” de uma abertura que há tanto tempo é pedida.

Esqueçam o simbólico, o significado de independente tem amplitude limitada: independente neste caso é um indivíduo que não está filiado num partido. Ponto final e parágrafo. Nalgum momento terá havido um namoro, uma aproximação, mas o independente simplesmente não pertence formalmente à estrutura partidária que o cooptou, não adianta efectuar qualquer extrapolação prévia. Nada mais. É um pouco como aquela ideia do católico não praticante, mas adaptada à política. É algo que, em definição, sabe-se que não pode existir. De qualquer forma, valoramos o espaço dado aos independentes porque sabemos que o oposto, isto é, um partido em que só conta a voz do dono e em que se restringe a liberdade de pensamento e acção, não é algo que forneça grandes resultados.

Poderá dar-se o interessante caso do independente não depender da política, ter vida própria, uma fonte de rendimentos autónoma – esse poderá revelar-se um ganho significativo para a coisa pública e para a democracia e acrescentar alguns graus de liberdade à tal “independência”. Diz-se ainda, do independente, que tem as suas próprias ideias, que pensa pela sua cabeça. É verdade, mas até certo ponto, porque se a dissonância fosse grande, o namoro teria terminado abruptamente muito antes. Assim, há a hipótese de redundar em casamento, isto é, haverá a possibilidade de o independente integrar um governo com base, obviamente, na sua competência técnica – só isso, pelo que nos dizem.

Se formos pela via do simbólico, somos tentados a pensar que esta é uma grande conquista. Se pararmos para pensar, poderemos chegar à conclusão que esta é mais uma graçola de quem nos governa. Para se atribuir tanta ênfase aos “independentes”, é necessário pôr a hipótese de termos a complexa estrutura orgânica de um ministério a ser realmente comandada por uma única pessoa, que decide efectivamente de forma quase autónoma, por si só e depois de reunida a informação necessária. É também pôr a hipótese de os secretários de estado serem literalmente secretários, malta para agendar reuniões, dactilografar documentos, atender telefones, servir cafés, tirar fotocópias e criar um bom ambiente num ministério, distribuindo cuidadosamente os arranjos florais. Nem uma nem outra hipóteses parecem prováveis. A comprovar isso mesmo, verifique-se as recentes nomeações (todas!) que constituem o executivo actual para se testar onde começa e acaba a dita independência. Será que os secretários de estado não terão uma agenda? Será que deixarão um ministro “independente” em roda livre? Outra hipótese será tentar perceber se existe algum partido disposto a compartilhar o poder e a ceder parte do controlo a quem quer que seja. Para já, deixem-nos governar para verificarmos se se confirma o estatuto ou se há toda uma máquina que os condiciona. De todo em todo, ainda que todos os novos ministros fossem “independentes”, nem nesse caso haveria uma matéria do foro do simbólico unicamente.

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