Os independentes e a política

2 Jul

“Agora está na moda ser independente”, disse Pedro Marques Lopes na última edição do programa Eixo do Mal num tom crítico e irónico. Surpreenderam-me essas palavras num programa em que os protagonistas são personalidades independentes com um pensamento livre e descomprometido. Exemplo maior dessa evidência é o Daniel Oliveira que, apesar de militante do Bloco de Esquerda, tem vindo a fazer forte críticas a Francisco Louçã.

Nos últimos tempos temos vindo a assistir a uma presença cada vez mais forte dos independentes na política: multiplicam-se as candidaturas independentes nas eleições autárquicas, Fernando Nobre teve uma forte votação nas últimas eleições presidenciais e foram vários os cabeças de lista independentes nas eleições legislativas de 5 de Junho nos dois principais partidos que foram a votos.

Depois disso houve a polémica com a eleição de Fernando Nobre para a Presidência da Assembleia da República, a ruptura do eurodeputado Rui Tavares com o Bloco de Esquerda e a constituição do XIX Governo Constitucional com quatro ministros independentes em pastas importantes como as Finanças e a Economia.

Há quem não goste desta preponderância crescente dos independentes na política, muitos deles sem qualquer tipo de experiência político-partidária. Mas destes factos sobressai uma evidência: a de que os partidos políticos atravessam uma crise profunda da Esquerda à Direita. Os partidos políticos deixaram de conseguir com que as pessoas aderissem aos seus projectos e aos seus ideais e procuram abrir-se à Sociedade Civil chamando personalidades reconhecidas.

O problema é que os partidos políticos têm vindo a mostrar que não conseguem lidar bem com a sua presença no seu seio. E isso é algo que afasta ainda mais as pessoas da política e mostra que os partidos não se estão a conseguir reformar mesmo recorrendo as personalidades da Sociedade Civil. Tal como escreveu o Luís Osório num artigo sobre Mário Sottomaior Cardia “os partidos políticos são, ao mesmo tempo, espaços de liberdade e do mais desprezível autoritarismo”.

É importante perceber que a política não é uma actividade exclusiva dos partidos e que o facto de alguém não ser militante de um partido não diminui essa pessoa politicamente nem a torna menos consciente do que aqueles que são filiados. Os sindicatos, as associações de estudantes, as comissões de trabalhadores, os movimentos cívicos e as organizações não governamentais são alguns dos movimentos onde também é possível fazer política e exercer os nossos direitos de cidadania. E possivelmente de uma forma mais livre e convicta ao mesmo tempo.

Por outro lado, pela parte dos independentes, é importante que para lá do seu respeitado percurso académico e profissional eles tenham noção de que também devem ter uma orientação política clara e bem estruturada. Os independentes que entram na política activa não se devem olhar ao espelho pensando que são a solução tecnocrática para os problemas que os incompetentes dos políticos não conseguem resolver. Essa é uma visão que em nada contribui para a credibilização da política, uma das actividades mais belas do ser humano.

Consta-se que Francisco Sá Carneiro pediu a um Secretário de Estado para abandonar um Conselho de Ministros depois de este lhe ter respondido a uma questão dizendo em tom marialva que não era político. Sá Carneiro pediu-lhe que saísse lembrando-o que estava num Conselho de Ministros e que esse era um lugar destinado a políticos.

E lembro este episódio porque entendo que é possível ser independente e ter um pensamento político estruturado e porque também entendo que é possível ser militante de um partido e reconhecer que a representação política não se esgosta neles próprios, sendo sempre necessário encontrar um equilíbrio entre o pragmatismo indispensável à solução dos problemas com que nos confrontamos e os princípios inegociáveis que devem pautar a nossa actuação cívica.

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Uma resposta to “Os independentes e a política”

  1. Tiago Brás 3 de Julho de 2011 às 1:46 AM #

    É importante para o crescimento do país que o Governo governe bem, ou que pelo menos tente, mas que haja uma oposiçao construtiva, e que todos se juntem a remar para o mesmo lado.
    Vejo com bons olhos a incersão de ministros independes no Governo, principalmente em pastas importantes, pessoas do ramo e que o governo acha capaz para exercer tal cargo.
    Outro aspeto que acho relevante é que assitimos neste governo, a entrada de ministros jovens e muitos deles com pouca experiência na Política, poderemos dizer que será um dos pontos da tal mudança que Passos Coelho falava?

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