Pequena carta às e aos feministas

30 Jun

Muita boa, e muito bom, feminista tem atacado a forma como a Slutwalk foi organizada e apresentada nas ruas de Lisboa. Começo por dizer que vos respeito e adoro opiniões divergentes, e por isso informo-vos da minha aqui.

Desde já aviso que sou queer feminista (numa corrente mais pós-estruturalista, pelo que tenho vindo a conhecer de mim própria) e fui slutwalker. Levei os meus mini-mini-calções rosa choque brilhante que me ofereceram o Verão passado. Trouxe os meus calções à rua, não para provocar, mas para afirmar que, (e atenção feministas que isto é importante) como pessoa que sou, eu apresento-me como eu quiser, seja numa manifestação política ou numa discoteca. Se eu andasse com aqueles calções todos os dias, diriam vocês também que eu não era feminista, ou que era menos feminista, por mostrar as minhas pernas? Ou iriam vocês mais longe, e mais correctamente, afirmar que eu tinha suficiente auto-confiança para quebrar esses mesmo estereótipos e aparecer de perna à mostra porque realmente se eu quero, é porque posso?

Quando eu fui à slutwalk dei a cara com, e por, todas as mulheres agredidas (sexualmente ou psicologicamente) pelo machismo que impera na sociedade das mais variadas formas; dei a cara com, e por, todas as mulheres que se sentem oprimidas e desvalorizadas aqui, no Canadá, na Índia, no Brasil, onde for, porque a minha luta é internacional e o meu mundo não tem fronteiras. Dei a cara porque sou uma delas, de uma maneira ou outra.

Não fui porta-voz de coisa nenhuma, tal como ninguém foi; simplesmente saímos à rua para afirmar que o nosso corpo não é mercadoria, e que não temos medo de falar nele ou sequer de o mostrar. E não temos medo porque ele é nosso, e temos poder total sobre ele, eu digo quando “sim é sim” e quando “não é não”.

Mas a autodeterminação e a luta contra a sociedade patriarcal, como é lógico, não se fica por aqui, e espero contar com os mesmos e as mesmas feministas que concordam ou discordam desta luta, nas próximas; porque falar é fácil, mas estar lá a derrubar a sociedade machista, normativa e patriarcal, é outra coisa.

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7 Respostas to “Pequena carta às e aos feministas”

  1. Frederico Brandão 30 de Junho de 2011 às 5:03 PM #

    Perdoa-me a ignorância mas o que é uma queer feminista? E já agora o que é a corrente estruturalista e as outras que houver? O meu conhecimento de sub-culturas deve ter ficado perdido algures na década passada.
    Apenas uma nota. A emancipação feminina no sentido de mostrar as pernas (e já agora usar pílula, fumar, topless, etc) aconteceu há 50 anos atrás. Isto parece algo como organizar uma manif agora contra a guerra no Vietnam… As coisas evoluiram muito, apesar de hoje em dia ainda existir alguma desiguladade, na minha opinião centrada principalmente na questão da maternidade e das suas consequências no mercado de trabalho e na carreira das mulheres. Mas de forma geral a batalha feminista está ganha. Em 10 ou 20 anos o mundo e o poder real vão ser controlados pelas mulheres. Na altura vamos andar aqui a defender a discriminação positiva para incluir homens (nas universidades, na política, etc).

    • teresaferraz 30 de Junho de 2011 às 5:42 PM #

      Frederico, muito sucintamente, queer é contrapor os binarismos de género e a forma como a figura de ‘lésbica’, ‘gay’ ou ‘trans’ foi construída, é defender que ser homem e ser mulher não é algo definido ou estanque, digamos que é ser contra o discurso normativo de descrever as sexualidades.
      E corrigi agora, era pós-estruturalismo, peço desculpa… O pós-estruturalismo é a ideia de constante desconstrução das ideias, rejeitando assim as verdades absolutas…

      E não Frederico, a emancipação feminina não acabou, uma mulher ainda é alvo de comentários discriminatórios quando se veste de certa maneira, quando vai para a cama com este ou esta, aquele ou aquela. Enquanto o homem é garanhão. Tudo isto são factores machistas, não de uma sociedade onde há igualdade de género. Peço desculpa a quem acredita que isso já aconteceu, mas não.
      Ainda se fizeram entrevistas e reportagens mil sobre a eleição da Assunção Esteves. Isto é sinal que estamos ao mesmo nível? Se fosse não haveria alarido.

      • Frederico Brandão 1 de Julho de 2011 às 1:31 PM #

        Bem, tenho de me actualizar sobre estas questões identitárias embora tudo isto seja folclórico em demasia e um pouco um tiro aos patos do que é importante. Um coisa é haver discriminação na doação de sangue, no casamento e até na adopção que será o próximo passo a dar. Isto é política e sempre que houver discriminação tem de ser combatida. Outra coisa é uma pessoa querer ser gay, trans, queer, assexuado, celibatário ou o que seja. Isto é uma questão individual e não me parece que seja grande problema. Haverá sempre conservadores e progressistas em tudo e a sociedade vai dando os seus passos. Sinceramente estou um pouco farto deste discurso dos xx, das sexualidades alternativas e afins, como se o problema do mundo fosse esse…
        Em relação à questão das mulheres não digo que a emancipação acabou. A nível mundial há imensas coisas que terão de mudar. As mulheres que não podem conduzir, os apedrejamentos por adultério, a desigualdade perante a lei em muitos países ainda, etc. Em Portugal e na maioria dos países europeus não existe desigualdade formal, pelo menos que eu esteja a ver assim de repente. Mais do que a igualdade perante a lei há outras coisas que têm a ver com a cultura e a sociedade que mudaram imenso. Falas de decotes ou de mini saias como se fosse algo de transcendente na nossa sociedade o que claramente não é. No tempo da minha avó foi um caso bicudo sem dúvida: os fatos de banho na praia, os jeans, as saias, os cigarros, etc. Agora hoje em dia isso é ridículo. Claro que quem veste diferente, quem faz diferente, tudo o que foge da norma provoca reacções nas pessoas e isso acontecerá sempre porque as pessoas têm necessidade de marcar diferenças, de criar roturas, de criar coisas novas de forma diferente. Sempre aconteceu e sempre há de acontecer e não é uma questão de género. Hás-de ter conflitos geracionais com os teus filhos por causa de qualquer coisa que vai surgir que para eles vai ser fundamental como identidade e para ti vai ser absurdo. E os teus filhos com os teus netos.
        Concordo com a questão do binómio mulher fácil/garanhão que é muito latina. Tem vindo a mudar mas ainda há um longo caminho a percorrer.
        No campo da política as coisas mudaram enormemente. A eleição da Assunção Esteves é prova disso mesmo. Houve alarido porque foi a primeira vez. Na próxima já ninguém se lembra disso. Vai sempre haver conversa quando for a primeira vez que alguém faz alguma coisa. Seja uma mulher a SG da ONU (como quase que aposto que a seguir ao Ban Ki Moon vai ser) seja um deputado brasileiro no parlamento tuga, seja um primeiro ministro negro em portugal, seja um presidente da Comissão Europeia gay. Além disso para terminar a questão das mulheres o que digo é que é uma batalha ganha pelo seguinte. Hoje tens muito mais mulheres do que homens nas universidades. Hoje os quadros jovens e intermedios nas organizacoes sao dominados pelas mulheres. Os mais altos sao na maioria homens mas porque é malta de outra geração. Dentro de 10 ou 20 anos muda. Nas engenharias (bastiao da masculinidade) tens tantas mulheres como homens a sair das universidades. E por ai fora. Está ganha, não porque todas as discriminações acabaram, mas porque as condições para que acabem estão mais que garantidas.

  2. orlopesdesa 30 de Junho de 2011 às 5:07 PM #

    teresa, tens toda a razão, mas já era de esperar que outras feministas viessem defender outras formas de protesto. Assim como seria de esperar que alguém com o objectivo de divulgar um ideal, seja criticado por outros que defendam o mesmo, mas não concordam com a forma de transmitir a mensagem. E nesse sentido irrita um pouco que existam ainda pessoas que pensam que têm a exclusividade de uma determinada luta, uma espécie de superioridade moral. Esse feudalismo já deveria ser coisa do passado.

    • teresaferraz 30 de Junho de 2011 às 5:46 PM #

      É verdade… Ainda existem os iluminados intelectualóides nos protestos. Assim se perdem lutas, quando estamos todos do mesmo lado mas viramos costas.

  3. Jorge 30 de Junho de 2011 às 11:58 PM #

    A globalização «at it’s best»: um qualquer idiota profere umas afirmações igualmente idiotas, algures no Canadá e protesta-se no Brasil e em Portugal, entre outros sitios. Fosse ao contrário e dúvido que as queer feministas, pós-estruturalistas, anglo-saxónicas se dessem ao trabalho de revelar a mesma solidariedade. Mas adiante, atentados bem mais graves – do que declarações machistas – são perpetrados contra os direitos básicos de muitas mulheres por esse mundo fora e, permita-me o desabafo, não vejo a mesma «solidariedade» global.

    • teresaferraz 1 de Julho de 2011 às 3:27 AM #

      Jorge, se me permite, engana-se quando diz que não há solidariedade global com atentados bem mais graves. Ela existe todos os dias nos movimentos sociais! Sabe que as coisas acontecem, por vezes ninguém as procura, mas não é por falta de mediatismo que elas param, antes pelo contrário. As formas de protesto e mudança não acontecem apenas quando saem no jornal, olhe por exemplo o Rossio… Existiu um acampamento fortíssimo politicamente que passou inúmeros dias sem estar em lugar nenhum.
      A Slutwalk resultou num boom mediático que consequentemente fez comichão a muita gente. E sim, é a globalização, pois tal como disse a minha luta é internacional.

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