Alguém tem de defender o Rui Tavares

29 Jun

A vida não está fácil para os independentes e para os críticos da oligarquia partidária. De repente parece que os partidos voltaram a ser organizações porreiras, abertas à sociedade e que mostram querer combater o aparelhismo. Passos Coelho foi buscar uma série de independentes para o seu governo e escolheu mesmo uma free rider de sorridente sotaque transmontano para presidir o Parlamento. O PS quer incluir não militantes nos seus processos de decisão e até Paulo Portas parece ter desculpado o seu ex-camarada Daniel Campelo pela heresia de ter deixado passar dois orçamentos no tempo do Guterres. Para além disso, o Governo dá sinais de abdicar de mordomias tão habituais para os detentores de cargos públicos o que, com efeito significativo na despesa do estado ou não, só pode ser valorizado, desde que não se fique por aqui claro está. Desta revolução cultural agora em marcha há que destacar também o simpático e porreiraço Álvaro e a sua surpreendente rejeição da titulocracia política. A Joana já abordou pertinentemente a questão aqui e neste capítulo só tenho de salutar a chegada a Portugal daquilo que é tão natural em muitos outros países. Olhemos para o inglês, por exemplo, onde a distinção entre o tu (you) e o você (theaw) já não existe talvez desde o Shakespeare e pensemos que sentido faz continuar com este extremo formalismo na linguagem.

Contudo, estes ventos de mudança não estão aparentemente a chegar a dois locais. Os tão mal-afamados e imprevisíveis mercados, contra toda a lógica liberal, aumentaram os juros da dívida portuguesa para novos máximos históricos. Numa era em que o Governo prepara privatizações e cortes profundos na despesa, num tempo em que o governo é suportado por uma maioria estável e de direita no parlamento e onde a tão proclamada maioria social (85%) dá, pelo menos assim pensa Passos Coelho, algumas garantias de paz social nos próximos tempos, a resposta dos mercados é nada mais nada menos do que aumentar juros. Imagine-se então quando e se o governo começar a meter os pés pelas mãos, quando e se a economia der sinais de não conseguir crescer e quando e se o descontentamento começar a encher as ruas.

Por seu lado o Bloco de Esquerda, em particular Francisco Louçã e o seu aparelho mais fiel, mostra-se pouco propício a ventos de mudança. É certo que o discurso oficial assegura que o BE anda a meditar sobre o assunto e Miguel Portas tem feito intervenções interessantes, mas para já mais parece algo do estilo vamos-lá-então-todos-juntos-reflectir-muito-para-tudo-continuar-na-mesma. O episódio com Rui Tavares é mais um caso demonstrativo de que as coisas não andam nada bem e as críticas que li pela blogosfera ao deputado europeu pareceram-me demasiado exageradas. Da crítica pública à moção de censura até ao voto favorável à criação da zona de exclusão aérea na Líbia, passando para algumas outras divergências que me terão escapado, Rui Tavares tem assumido na minha opinião uma postura coerente. Um independente como o próprio nome indica é independente e como tal não tem de seguir a 100% a linha oficial do partido pelo qual se candidata, senão nesse caso não teria lógica chamar-se independente. 

Fui leitor atento do Rui Tavares enquanto tive acesso ao Público em papel e continuo a ler as suas crónicas pela net de vez em quando. É provavelmente o cronista que mais aprecio naquele jornal e do que li dele lembro-me de algumas crónicas de antologia, uma das quais, esta, na altura das eleições presidenciais. Apesar de não ter votado no BE nas Europeias fiquei satisfeito com a sua inclusão na lista e posterior, e até surpreendente, eleição. Destaco ainda do seu trabalho a criação de um fundo com parte do seu salário para financiar projectos de vários tipos e destinado a jovens em Portugal.

A história mais recente é conhecida de todos e é um pouco ridícula. Louçã, um pouco paranóico, indigna-se com a chamada tentativa de apagar Fernando Rosas da história e acusa Rui Tavares de ser o responsável. Este último, indigna-se com a acusação e exige um pedido de desculpas. Como não houve desculpas, o resultado desta historieta foi a saída de Rui Tavares do GUE/NGL (Grupo do BE e do PCP no Parlamento Europeu) e subsequente adesão aos Verdes Europeus. Para lá da espuma da questão que não interessa a ninguém, há pelo menos dois aspectos políticos que são importantes de se falar: (1) a relação do BE com os independentes e (2) a vocação europeia deste partido.

1 – Todos os partidos gostam de trazer independentes para o seu seio pois isto vai de encontro à necessidade de abrir caminho na sociedade e de alargar o espectro de actuação. Contudo há partidos que vivem melhor com os independentes do que outros e o BE não parece viver muito bem com eles. A natureza do BE é até contraditória nesta matéria. Se por um lado o facto de ser um partido-movimento torna quase contra-natura dar-se mal com os independentes, por outro lado as raízes de extrema esquerda, tradicionalmente ultra-sectárias, deixam antever que ao mínimo deslize os independentes serão postos no olho da rua. Neste caso concreto, Rui Tavares foi dando a entender que não se sentia muito bem dentro do partido e que havia alguma tensão por ter vindo a exercer o seu mandato com independência. O copo transbordar era apenas uma questão de tempo.

2 – O BE faz parte de um grupo europeu no mínimo duvidoso, onde partilha assento com PCs e afins de raíz claramente ortodoxa. É perfeitamente natural que Rui Tavares não se tenha sentido bem por ali e que tenha sentido alguma atracção pelos Verdes. Afinal os Verdes são os herdeiros naturais da esquerda que rompeu com o socialismo real de onde o BE vai beber alguma da sua inspiração. Para além disso há Cohn-Bendit, a personagem do Parlamento Europeu e sem dúvida uma das grandes figuras da esquerda da segunda metade do séc. XX. Não me parece nada de estranho que Rui Tavares tenha gasto algum do seu tempo livre em conversas com ele e que aos poucos tenha sentido que estaria bem mais confortável nos Verdes do que no GUE/NGL.

Criticar e estar em desacordo é saudável e faz parte da vida democrática. Agora a inquisição e a fogueira que o aparelho Bloquista por vezes lança àqueles que pensam diferente parece-me uma atitude demasiado imbecil para quem anseia criar uma esquerda grande.

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