Um percurso exemplar posto em causa pela política

25 Jun

Sempre acreditei que a política é uma das actividades mais nobres do ser humano. Mais do que as visões realistas da procura e manutenção do poder e da luta pela sobrevivência, sempre vi a actividade política como uma forma de contribuir para o bem comum e para a felicidade das pessoas.

É possível fazer política de muitas formas: nos partidos, em organizações não governamentais, em instituições públicas e privadas, exercendo os direitos de cidadania que cada vez mais nos interpelam nos dias de hoje. Continuo a acreditar que a participação cívica e consciente é a única forma de ultrapassarmos a difícil situação que atravessamos. Como disse Platão, “a penalização por não participares na política é acabares por ser governado pelos teus inferiores”.

É público que fui Mandatário Distrital por Viana do Castelo da Candidatura de Fernando Nobre à Presidência da República. Ele é certamente um dos portugueses que mais admiro. Conheci-o pessoalmente ainda antes de se lançar na política activa, quando era apenas reconhecido por ser o Fundador e Presidente da AMI. Durante muito tempo, li os seus livros e acompanhei o seu percurso.

Sei que em todos os cantos do mundo há alguém que deve algo a Fernando Nobre. Alguém que já salvou vidas em mais de 150 países em missões humanitárias tendo como pano de fundo os piores cenários de dor que podemos imaginar, deve merecer de todos nós respeito e consideração. Sejamos sérios: quantos teríamos a coragem de o fazer sacrificando a nossa vida familiar e a nossa saúde para acorrer a vítimas de genocídios, conflitos sangrentos e catástrofes naturais? Graças a ele, a Fundação AMI é uma das instituições que mais prestigia Portugal em todo o mundo e mesmo dentro de portas tem dado um contributo importante para o combate à pobreza com os seus Centros Porta Amiga.

Fernando Nobre não pode ter passado de bestial a besta em tão pouco tempo. Fernando Nobre ao sujeitar-se a uma exposição mediática tão grande nos últimos meses apenas demonstrou as suas qualidades e os seus defeitos, características inerentes a qualquer ser humano. Tal como disse um dia Nelson Mandela, “na vida real lidamos, não com deuses, mas com seres humanos normais como nós: homens e mulheres cheios de contradições, que são constantes e instáveis, fortes e fracos, famosos e infames”.

Apoiei Fernando Nobre sem reservas na sua campanha eleitoral para as Presidenciais. Um campanha em condições extremamente difíceis a todos os níveis. Muitos foram os oportunistas que se afastaram quando viram que a estrutura era frágil e as sondagens rondavam os 3 por cento. A cobertura da comunicação social foi também ela tendenciosa (embora não tenha sido apenas com Fernando Nobre).

E há que admitir que houve também erros internos, próprios de um processo de aprendizagem de muitas pessoas que nunca antes se tinham envolvido na política. Sem esses erros, o resultado poderia ter sido muito melhor. Nem sempre a mensagem passou da melhor forma. Não foi uma campanha contra os partidos, mas sim contra os seus piores vícios. Não foi uma campanha contra a classe política, mas sim contra os maus políticos.

O resultado de 14 % surpreendeu e a partir daí, muitos dos que antes o desprezaram, começaram a procurar Nobre e tudo terminou como sabemos: candidatura como Cabeça de Lista do PSD por Lisboa às últimas eleições legislativas, promessa da Presidência da Assembleia da República, que falhou na passada segunda-feira após duas votações insuficientes para a sua eleição.

As suas afirmações de que nunca se candidataria por um partido político, durante e depois das eleições presidenciais, foram um erro. É certo que só os burros é que não mudam de opinião, mas também é certo, que na vida pública as palavras devem ser muito bem medidas. Além do mais, a comunicação da candidatura pelo PSD por parte de Fernando Nobre e Passos Coelho foi mal conseguida.

Para além disso, a sua candidatura tinha sido completamente transversal a toda a sociedade portuguesa e a todos os quadrantes políticos. Compreendo pois, que muitos se tenham sentido desiludidos. Pela mensagem da campanha eleitoral, pelas afirmações categóricas de que nunca faria o que veio a fazer.

Afirmei que no lugar de Fernando Nobre não seguiria esse caminho e continuo e pensar da mesma forma. Mas nem por isso me achei mais sério do que ele por tomar esta posição.

Entristecem-me os insultos de que foi alvo e certas acusações estapafúrdias feitas por alguns dos antigos apoiantes e adversários. São visíveis as contradições do seu discurso e que nem sempre foram bem explicadas. Mas não acredito que nesta candidatura houvesse alguma tentativa de transferir os votos das presidenciais para as legislativas ou alguma fome insaciável por um lugar ao sol. O voto é secreto e pertence a cada um de nós, não constituindo nenhum tipo de amarra ao que se fez no passado. Pelo contrário, o voto é um acto de liberdade onde somos chamados a depositar ou retirar a nossa confiança naqueles que se sujeitam ao nosso julgamento.

Penso que se não tivessem havido todas estas contradições, todos nós ficaríamos felizes por haver um independente a presidir à Assembleia da República. Hoje temos uma mulher, algo que também me deixa satisfeito, embora tenha sido uma segunda escolha e tenha que vir a conviver com isso.

Saúdo a dignidade e a coragem de Pedro Passos Coelho em manter o seu compromisso, mesmo sabendo que poderia começar a legislatura com uma importante derrota política. Precisamos de governantes que tenham essa coragem. No entanto não tenho dúvidas de que a não eleição de Fernando Nobre constitui também uma vingança do sistema que não lhe perdoou a denúncia corajosa dos seus vícios e dos seus interesses. Não tenho sequer dúvidas que essa vingança é transversal e inclui também certos elementos do PSD.

Quanto a Nobre, mantenho o respeito pela sua magnífica obra de vida e a minha amizade com ele. Certo que, tal como no passado, nem sempre estarei de acordo com as suas posições e decisões, mas essa é também a beleza e a importância da democracia nos dias de hoje.

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2 Respostas to “Um percurso exemplar posto em causa pela política”

  1. orlopesdesa 25 de Junho de 2011 às 10:41 PM #

    O caso do Fernando Nobre, fez-me realmente pensar se é possível que alguém se envolva na política activa sem acabar por se “sujar”… e depois há a questão da comunicação social que cria e destrói mitos… Passos Coelho, é neste momento um Deus para muitos jornalistas… Não sei quantos meses precisa para passar a ser a besta negra…

    • Carlos Alberto Videira 26 de Junho de 2011 às 6:32 PM #

      Orlando. Tenho as mesmas dúvidas que tu. O que me preocupa muito, pois quer dizer que é cada vez mais difícil acreditar que seja possível reformar a política por dentro. Isto porque as transições pacíficas e progressivas são sempre preferíveis às revoluções por muito românticas que elas sejam à primeira vista (por exemplo, todos nós vibramos com as revoluções no Magreb mas a verdade é que infelizmente houve dezenas de jovens a morrer nas manifestações).

      A verdade é que tal como disse John F. Kennedy: “Quem torna as transformações pacíficas impossíveis torna as mudanças violentas inevitáveis”.

      Quanto à comunicação social, há um professor aqui na UMinho que diz que “hoje em dia é mais fácil à comunicação social deitar um político abaixo, do que à sua própria oposição.”

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