E assim se destrói uma lenda (1) – Mitos, verdades e falsidades sobre Fernando Nobre

22 Jun

Que a política é uma arte com detalhes que não estão ao alcance de todos não é novidade para ninguém. Que a política pode ser por vezes uma actividade suja e hipócrita também não surpreende muitos. Mas o que se passou nestes últimos meses em torno do caso Fernando Nobre ultrapassa de longe os limites da imaginação.

Foi penoso, triste e desumano assistir a Fernando Nobre, qual condenado à fogueira em lume brando, ser implacavelmente rejeitado como Presidente da Assembleia da República (AR). Um triste episódio da história da política portuguesa que, apesar de eventualmente não terminado, tem aqui um desfecho indigno e injusto.

Em Abril deste ano escrevi aqui uma nota onde manifestei o meu desacordo e estupefacção perante a opção tomada por Fernando Nobre. Apesar da discordância, não entrei no caminho fácil do ataque cego e emocional ao homem como se viu em muitos sectores da candidatura e fora dela e até fui criticado por não fazer parte do coro de linchadores públicos. Achei exageradas algumas das críticas que foram sendo feitas pois não acreditei que Nobre tivesse passado de um dia para o outro a ser um oportuno carreirista. Apesar da forma mal amanhada como tudo foi feito, pensei e ainda penso, que as intenções de Nobre não foram más. De boas intenções está o inferno cheio poder-me-ão dizer. Sim, sou forçado a concordar e lá fui assistindo algo incrédulo à morte lenta dos ex-candidato presidencial. Surpreendeu-me a forma como de um dia para o outro se pode passar de herói a vilão. E pior ainda, assustou-me a forma como se pode destruir o trabalho de toda uma vida em poucos meses.

Todo o processo desde o final das eleições foi profundamente mal gerido, e já que se fala muito em sorte na política, tudo o que podia correr mal correu mesmo mal. Nobre deu o dito por não dito e meteu os pés pelas mãos uma série de vezes, demonstrando muito mais deficiência e falta de preparação comunicacional do que propriamente incoerência de pensamento. Aliás foi essa mesma falta de preparação comunicacional, aliada ao profissionalismo da máquina propagandista socialista, que o condenou ao fracasso e à incompreensão pública, em particular de muitos daqueles que o apoiaram na corrida presidencial.

Nobre cometeu muitos erros, já se sabe. Creio que o maior erro foi menosprezar a opinião de todos aqueles que o apoiaram e de ter pensado que sozinho, livre como gosta sempre de afirmar, poderia tomar as decisões que melhor entendesse. Perdeu assim a sua base de apoio mais fiel e militante e todo o potencial e força que essa base lhe podería dar. Mais, com estas trapalhadas todas o seu meio milhão de votos desvaneceu-se no ar e se Nobre tinha algum poder negocial em Janeiro, hoje em dia pouco ou nada vale perdido e sozinho no seio da bancado do PSD.

É triste e desolador ver como tudo isto se processou. É incrível como a opinião pública, bem mais condescendente com os verdadeiros maus, o acusa de querer um tacho e de não olhar a meios para o atingir. É absurdo ver como o trabalho da AMI é posto em causa com absurdas reivindicações de auditorias (como se todas as ONGs não fossem auditadas todos os anos), com acusações de promiscuidade de dinheiros públicos (como se todas as ONGs não se candidatassem a financiamento de projectos do Governo – IPAD ou da Comissão Europeia – ECHO e DG DEV) ou como se houvesse algum problema em estabelecer protocolos com o poder local.

(Continua)

Esta semana estava a pensar escrever sobre algo mais confortável como o novo elenco governativo ou sobre a desilusão que tive ao saber que André Villas Boas trocou o Porto pelos milhões do Chelsea. Contudo, ao assistir ao triste episódio da eleição do presidente da AR decidi abrir no meu espaço semanal neste blog uma série de textos onde, com a imparcialidade possível, irei reflectir sobre os acontecimentos que culminaram com a rejeição da candidatura de Nobre a presidente da AR. Este é o primeiro da série.  

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