Que objectivos temos para Portugal?

18 Jun

Consta-se que pouco tempo depois do 25 de Abril, Olof Palme deslocou-se a Portugal e encontrou-se com Otelo Saraiva de Carvalho. O social democrata que ficou na História pela forma como conseguiu conjugar uma economia de mercado forte com um Estado Social eficaz, questionou o estratega do 25 de Abril sobre os seus objectivos para Portugal. Otelo nem pestanejou e disse: “Queremos acabar com os ricos”. Surpreendido, Olof Palme respondeu: “Curioso, nós na Suécia queremos é acabar com os pobres”.

Otelo surpreendeu o país pouco tempo antes das últimas eleições com algumas declarações. Elogiou a inteligência de Salazar, confessou estar desiludido com o rumo que o país seguiu e chegou ao ponto de afirmar que “se soubesse como o país iria ficar não fazia o 25 de Abril”. Com o tempo, vão-se as ilusões e ficam os ideais.

A descrença e o pessimismo parecem não querer largar o povo português. Pela terceira vez em pouco mais de 37 anos de democracia fomos obrigados a recorrer ao Fundo Monetário Internacional para corrigir o défice orçamental e recuperar as finanças públicas.

A 6 de Outubro de 2010, por ocasião do Centenário da Implementação da República, o Jornal de Negócios publicou um gráfico com a análise das finanças públicas nos últimos cem anos. Tragicamente, concluiu que o problema do défice orçamental é algo crónico na história da democracia portuguesa e que apenas em ditadura o país conseguiu equilibrar as suas contas públicas.

Talvez esses dados mereçam ser vistos com atenção. Muitos dos votos nulos apurados nas últimas eleições legislativas faziam a apologia a Salazar que já em 2007 havia sido o vencedor do concurso “Grandes Portugueses” da RTP. Não me parece que estes dois acontecimentos constituam por si só um importante facto político, mas lembro-me da lucidez de Fernando Dacosta, que no final do programa que consagrou Salazar como o vencedor daquele concurso afirmou que “tão violento é prender uma pessoa pelo seu pensamento e pela sua ideologia, como despedi-la pela sua idade como vemos acontecer à nossa volta todos os dias”.

Posto isto, quero deixar claro que não estou de maneira nenhuma a fazer qualquer apologia ao fascismo ou algo do género. A liberdade conquistada é um bem precioso demais para se voltar a devolver a algum predestinado que acredite ser dono do pensamento de cada um. Somos hoje um país mais desenvolvido, tolerante e aberto ao mundo e disso nos devemos orgulhar. Mas ainda estamos longe de concretizar todas as nossas potencialidades como país e como democracia.

Não seremos capazes de conseguir fazer dos partidos espaços de reflexão e de debate em vez das actuais máquinas de procura pelo poder em que se parecem ter transformado? Não seremos capazes de em democracia saber utilizar os recursos de uma forma responsável e sustentável, assegurando uma distribuição da riqueza mais equitativa entre todos? Não seremos capazes de preservar os direitos políticos adquiridos com os direitos económicos e sociais que nos vão escapando cada vez mais?

Somos hoje um país demasiado desigual e as medidas impostas pela “troika” podem contribuir ainda mais para as assimetrias com que nos debatemos neste momento. Para que tal não aconteça, cabe aos líderes políticos e às nossas elites a responsabilidade de levarem a cabo uma mudança de atitude relativamente ao que tem sido feito nos últimos anos. Essa mudança de atitude passa por falarem verdade aos portugueses numa linguagem que eles entendam e por darem o exemplo partilhando os sacrifícios que pedem a toda uma nação que se prepara para tempos muito complicados.

Essa atitude inspirará confiança e galvanizará o país para que de uma vez por todas se consiga acabar com os pobres em Portugal.

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