Que futuro para o Bloco de Esquerda?

15 Jun

Muito se tem escrito e falado sobre o Bloco de Esquerda desde o desaire eleitoral de 5 de Junho. Há de tudo um pouco. Pela esquerda, os que defendem a revolução socialista, critica-se entre outras coisas o aburguesamento parlamentar que o Bloco adquiriu com o seu rápido crescimento eleitoral. Pela direita, os que defendem um partido com pendor governativo, critica-se entre outras a ausência de um programa político diferente do comunista. Pelo meio ainda há apelos à demissão de Louçã e à renovação da estrutura do partido e muitas teses e análises sobre o seu presente e futuro.

Costuma-se dizer que em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. E talvez assim seja. O BE não é hoje um partido assim tão diferente daquele que surpreendeu nas legislativas de 2009. Veja-se por exemplo que os candidatos a deputados eram, com uma ou outra excepção, os mesmos que em 2009 e que o programa político tirando a actual questão da ajuda externa era sensivelmente o mesmo. Então como se entende este desaire eleitoral? Antes da reflexão deixo algumas notas introdutórias.

1 – O BE foi sem dúvida a grande novidade do sistema político português dos últimos 20 anos ao conseguiu abrir caminho num espectro simétrico e quadrático de 4 partidos parlamentares. Tentar penetrar neste sistema aparentemente fechado não se afigurava tarefa fácil. No entanto o BE conseguiu-o, e apesar deste desaire, consegui-o muito bem. O BE rompeu com a ortodoxia do PCP por um lado e com a deriva liberal do PS por outro e apesar das origens de esquerda radical posicionou-se entre estes dois. Mesmo sem conseguir encostar muito o PCP para canto, o BE conseguiu empurrar o PS para a direita e conquistou um espaço que, apesar de se ter reduzido agora, não deixa de ser significativo.

2 – Como toda a gente sabe, o BE tem origem na comunhão de esforços e de interesses de pequenos partidos e grupos de esquerda que resultaram das imensas cisões e contra-cisões que dominaram a história da extrema esquerda, arriscar-me-ia eu a dizer, desde sempre. Sozinhos estes grupos pouco valiam. O resultado mais forte do PSR tinha sido em 1991 com pouco mais de 60 mil votos e a UDP apenas elegeu um deputado nessa legislatura por estar nas listas do PCP. Surpreendentemente, estes partidos conseguiram assegurar uma plataforma de entendimento minimamente consistente e pela primeira vez à esquerda o pragmatismo venceu a pureza ideológica. Este trabalho não tardou a produzir resultados. Em termos de estrutura o BE tornou-se um pólo de atração de militantes quer com o regresso de muitos descontentes e desacreditados da política quer com a entrada de muitos jovens que se sentiram atraídos pelo ar fresco que o partido representava. Em termos eleitorais o BE não mais parou e de eleição para eleição foi aumentando a sua força, a sua presença nos media e a sua representação. 

3 – Foi o partido da moda durante uns anos. Retomou os valores de esquerda que pareciam esquecidos pelo PS e que eram maltratados pelo PCP. Pareceu um partido livre de preconceitos e de agendas ocultas e aparentemente respirava-se liberdade e democracia no seu seio. Apresentou bandeiras importantes que na altura pareciam impensáveis mas que fizeram o seu caminho na sociedade e que hoje, muito graças ao BE, são realidades. Falo da IVG e falo do casamento homossexual entre outras que entretanto caíram. Bandeiras estas que contribuíram muito para a aproximação e adesão de muitos activistas sociais o que fez com que o BE se identificasse como o tal partido-movimento.

Contudo, nem tudo poderiam ser rosas neste percurso ascendente e algum dia haveria de chegar a hora da verdade. O BE vive hoje uma fase determinante da sua curta história e apresenta enormes problemas que podem até colocar em causa a própria sobrevivência do partido. Para mim, mais do que a análise conjuntural que se fez deste desaire pondo a culpa nesta ou naquela posição, o problema do BE assenta em pelo menos duas grandes contradições.

1 – Ser um partido de base radical e de eleitorado moderado. Tem sido falado aqui e ali e sem dúvida que este ponto faz do BE um partido algo esquizofrénico. Por um lado as suas bases, mesmo apesar das divergências, defendem um programa político de carácter mais revolucionário. Veja-se por exemplo como são defendidas a saída de Portugal da NATO e a nacionalização de determinados sectores da economia. Por outro lado o seu eleitorado, pelo menos o mais volátil, apoia medidas mais moderadas e social-democratas* (no sentido verdadeiro da social democracia). Este fenómeno faz com que o BE viva num equilíbrio instável que conseguiu disfarçar no tempo das vacas gordas, mas que agora vem ao de cima. Não é uma situação fácil pois pode romper a corda de qualquer um dos lados. Se vai demasiado ao encontro dos anseios das bases perde eleitorado e por outro lado se vai demasiado em contra os anseios do eleitorado perde a estrutura.

2 – Querer ser o tal partido movimento numa era em que os movimentos são quase anti-partidos. Não tem sido falado, mas não deixa de ser curioso que um partido que está na sua origem bastante ligado aos movimentos sociais e que beneficiou muito da sua incorporação seja agora repelido pelos novos movimentos que entretanto surgiram. Actualmente qualquer aproximação partidária a um movimento é vista como uma espécie de lepra. Aliás um movimento só vinga se conseguir manter uma distância razoável face aos partidos e isto observa-se nos movimentos que surgem no seio do BE que mal conseguem sair da marginalidade política e social (ex: FERVE, Precários Inflexíveis, entre outros). Isto torna a posição do BE semelhante à de um pai que é rejeitado pelos filhos e que olha para eles à distância com um sentimento de frustração por não poder estar perto.

Para além das suas próprias contradições o BE sofreu também uma espécie de síndrome Jorge Jesus desde as eleições de 2009. Não percebeu que o resultado que teve nessa altura foi claramente conjuntural e deve ter pensado que de um dia para o outro mais de meio milhão de revolucionários disciplinados e organizados estavam cegamente prontos a apoiar o BE e a fazer a revolução. Faltou humildade, e nem o péssimo resultado das autárquicas deve ter servido de aviso a uma direcção que só lhe faltou dizer que ia ganhar a Liga dos Campeões na próxima época. O resultado é visível e agora a depressão interna pode ser bem longa e penosa. Mais, as divergências internas podem ganhar imensa força e desestabilizar o partido por muito tempo. Se em tese se poderia dizer que com o tempo e com o crescimento do partido as tendências internas iriam perder força e iria surgir uma nova geração de militantes de formação puramente bloquista pouco ou nada importados com as divergências clássicas do esquerdismo. Aparentemente esse processo falhou ou pelo menos está a demorar muito mais tempo do que seria desejável.

Quanto à troika de razões apontadas ao fracasso eleitoral penso que o seu peso não terá sido assim tão significativo. Simplisticamente, há duas grandes alternativas de caminho para o BE, ser um partido de poder ou um partido de oposição. Nesta linha de raciocínio não se podem colocar os três aspectos normalmente referidos, o apoio a Alegre, a moção de censura e a recusa em negociar todos no mesmo saco. O apoio a Manuel Alegre não me parece um erro na perspectiva de transformar o BE num partido de poder. Sendo o espaço lógico de crescimento a esquerda do PS e além disso tendo em conta que há muita gente que defende uma aliança com o PS, nada melhor do que ensaiar uma aproximação. Claro que à posteriori é muito fácil dizer que foi um tiro no pé e claro que isto causou algum desconforto aos sectores mais à esquerda pois viram-se obrigados a tolerar o apoio de José Sócrates. Os resultados dessas presidenciais por vários factores óbvios não podem ser transpostos para eleições legislativas portanto ainda está por testar a possibilidade de coligação PS/BE.

Por seu lado, a moção de censura foi uma imbecilidade por todos os motivos e mais alguns. Nem numa perspectiva de poder, nem numa de oposição faria sentido algum apresenta-la naquela altura. Creio que a razão de Louçã o ter feito foi tentar ganhar algum espaço na oposição de esquerda ao PCP o que pareceu bastante infantil. Quanto ao terceiro aspecto, a recusa em sentar-se à mesa das negociações, não me parece um erro na perspectiva do BE como partido de protesto. Claro que com isso perdeu eleitorado moderado e na perspectiva de poder ficou claramente a perder. O BE não resistiu ao preconceito esquerdista face ao FMI. Acontece que ao contrário de 74/75 a população está mais interessada em que lhe resolvam os problemas do que em discutir ideologias e como o BE não apresentou alternativas credíveis, votar BE seria sempre uma forma de resistir ao avanço liberal e nunca uma alternativa de poder.

A grande questão será agora ver para que lado cairá o BE. Pode optar por ser um partido de protesto mais próximo da sua origem, mantendo com isso a sua natureza anti-capitalista mas dificilmente conseguindo aumentar a sua base de apoio. Ou pode avançar para o lado governativo, podendo assim ter algum poder de mudar a realidade mas correndo o risco de ver desaparecer grande parte da sua base de apoio ao mínimo compromisso com o capitalismo e ser assim acusado de traição à esquerda. Difícil caminho este. Não creio também que o partido necessite assim tanto de renovação de quadros porque a maioria dos actuais estão ainda frescos e também não me parece que hajam assim tantos mais à espera de oportunidade. Como li por aí o BE não é propriamente um partido de boys onde a cada desaire eleitoral se faz o ajuste de contas e se reestrutura a relação de poder interna com vista ao próximo assalto ao pote. Quanto a Louça a questão é diferente e talvez seja tempo de deixar o lugar. Talvez Pureza fosse uma boa opção.  

* Na formação do plural em adjectivos compostos, como é o caso em apreço, a regra geral indica que apenas o último elemento torna a forma do plural. De acordo com a regra gramatical afigura-se como certa a designação “os social-democratas”.

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