Mitigação de riscos

14 Jun

Agora que temos a nossa versão dos Chicago Boys prontos para exercer o poder e cortar a eito, agora que Portugal está prestes a abraçar o New Public Management, é uma possibilidade que este afã pelo mercado traga para o futuro executivo um gestor de risco. Não me refiro a um daqueles profissionais que monitoriza a actividade de dependências bancárias ou os níveis de solvibilidade dos clientes pertencentes a determinada carteira. Refiro-me, sim, a alguém que tenha competências firmadas nesse jogo de análise sobre possibilidades futuras, alguém que perceba que o risco não tem uma conotação necessariamente negativa, que remete para a ideia de controlo, mas que, por vezes, é útil uma gestão mais conservadora das actividades associadas a esse conceito.

As melhores práticas nas organizações dizem-nos que é necessária uma perspectiva holística que considere todos os riscos a que se está ou pode estar exposto. Entram, aqui, os piores casos que se possam imaginar. Isto porque, a vários níveis, o segredo estará na preparação pré-evento crítico. Esta hipótese implica considerar até casos completamente estapafúrdios, situações que nunca aconteceram, mas que podem ser originadas e afectar a normal actividade de uma organização. Parte financeira é crucial, já que afecta todas as outras. Tal princípio aplica-se às famílias. Duas componentes fundamentais são, por isso, a análise e classificação dos riscos. Interessa, também hierarquizar, já que cada risco terá um nível de relevância próprio em função dos impactos que pode acarretar. Neste sentido, também não existe risco zero, por muito que aliás se refira tal condição quando se pretende evidenciar confiança em algo. Quanto muito, haverá risco residual. Depois, acontecimentos certos deixam de ser matéria para a análise de risco, desde logo porque isso significa uma probabilidade de valor um. Por último, devemos aprender o máximo possível com as crises, inclusive com as que não nos afectam directamente.

Qual a vantagem de actuar-se numa lógica de gestão de risco? Como é sabido, existirão porventura três grandes grupos entre as decisões manifestamente erradas na actividade governativa: um primeiro, constituído por decisões desajustada por mudança das condições que lhe deram origem; um segundo, dado por decisões menos conseguidas deliberadamente, já que alguém lucra com isso; por fim, um grupo generoso dado por decisões incorrectas por via de ausência de conhecimento sobre as matérias. Esta ausência de conhecimento poderia ser menos gravosa se maior fosse o alcance do bom senso. Um estudo de caso pode ser dado pelo que tem vindo a suceder com a nossa dívida soberana. Para lá da crise internacional ou das próprias ofensivas dos mercados financeiros e dos especuladores, esse foi um risco que não soubemos gerir convenientemente. A dívida soberana portuguesa é representada por uma curva que inflecte de forma muito assinalável algures pelos anos 90 e que foi agravada a partir de 2008. A má gestão da dívida nas suas componentes pública e privada significa, na prática, níveis de exposição acima da média que estão já a acarretar subordinação a uma série de imposições externas. Essa má gestão afecta, também, directamente a vida dos cidadãos e o funcionamento do sistema democrático.

Porque é que há riscos que não podem ser menosprezados? Tal como nos eventos de origem natural ou tecnológica, uma conclusão recorrente é a de que é sempre mais barata e eficiente a prevenção e/ou mitigação de um risco em vez do acto de mera resposta a uma crise. Nesse particular, é exactamente isso que surge no horizonte de Portugal: para já, para lá da própria dívida, existem juros altíssimos para pagar. Entre as imposições, consta um programa que implica efeitos recessivos, o oposto daquilo que necessitamos de momento. No futuro, poderão suceder-se mais eventos que gerarão impactos significativos e custosos sobre o conjunto dos cidadãos. Tudo porque, irresponsavelmente, não soubemos antecipar consequências de um conjunto de acções improcedentes. Isto a propósito desta notícia.

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