E agora Portugal?

11 Jun

Num tempo de enormes desafios e difíceis obstáculos, assinalamos ontem mais um Dia de Portugal depois de no último domingo termos ido a votos para escolher o novo primeiro-ministro do nosso país que será Pedro Passos Coelho, ao que tudo indica em coligação com o CDS de Paulo Portas.

Propositadamente não escrevi nada no último sábado: era dia de reflexão e eu próprio não queria emitir qualquer tipo de opinião política.

Todos sabemos que o ciclo de José Sócrates estava esgotado. Se é verdade que a crise financeira mundial teve efeitos tremendos nas economias mais frágeis, sentia-se um enorme desgaste relativamente à governação do Partido Socialista, fruto da teimosia do seu secretário geral e da sua dificuldade em criar consensos dada a sua faceta de “animal feroz”. Tudo isso contribuiu para um ambiente insustentável entre os partidos e as principais instituições que não poderia continuar.

A governação dos últimos seis anos é, no meu entender, a principal responsável pelo estado a que chegamos. Mas, infelizmente, não é a única. O modelo de desenvolvimento que seguimos depois do 25 de Abril já nos obrigou a recorrer ao Fundo Monetário Internacional por três vezes em pouco mais de trinta anos. O país está esgotado e a própria classe política, da Esquerda à Direita, não consegue gerar confiança nos portugueses.

Prova disso, é o facto de, mais uma vez, ter-se registado uma taxa de abstenção acima dos 40 %. O Presidente Cavaco Silva disse no último sábado que quem prescindisse do dever de votar perdia legitimidade para fazer críticas daqui em diante. Não estou totalmente de acordo com esse pensamento, embora também entenda que a abstenção nunca é solução. Sobretudo por respeito a um grande número de pessoas que deu a sua vida e fez muitos sacrifício de invulgar coragem para que hoje tivéssemos a possibilidade de eleger aqueles que nos governam e que nos representam.

Mas se os portugueses sucessivamente se abstêm nos actos eleitorais pode também querer dizer que infelizmente não se vêm devidamente representados pelos partidos com assento parlamentar e estão descrentes no futuro do país. E olhando para o actual cenário com que nos defrontamos, é compreensível que muitos se sintam assim. Os partidos precisam de se reformar e de se abrir definitivamente à Sociedade Civil apresentando projectos e desígnios para o país, que estejam para lá da intriga partidária. O sistema eleitoral tem que ser alterado de modo a permitir uma maior proximidade entre eleitos e eleitores.

Enquanto tal não suceder será difícil alterar a relação entre os cidadãos e a política. Enquanto tal não suceder será muito difícil mobilizar os portugueses para enfrentar o que aí vem. Ontem, nas Comemorações do Dia de Portugal, António Barreto voltou a fazer um discurso corajoso chamando a atenção para alguns dos problemas que juntos enfrentamos. Já há alguns anos que o sociólogo aproveita esta data para o fazer. É com um excerto do seu discurso de há dois anos, que termino este artigo:

“Descobrimos mundos, mas fizemos a guerra, por vezes injusta. Civilizámos, mas também colonizámos sem humanidade. Soubemos encontrar a liberdade, mas perdemos anos com guerras e ditaduras. Fizemos a democracia, mas não somos capazes de organizar a justiça. Alargámos a educação, mas ainda não soubemos dar uma boa instrução. Fizemos bem e mal. Soubemos abandonar a mitologia absurda do país excepcional, único, a fim de nos transformarmos num país como os outros. Mas que é o nosso. Por isso, temos de nos ocupar dele. Para que não sejam outros a fazê-lo.”

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