O balanço deste governo e desta liderança começará agora a ser feito. O que ficará para a história só o tempo o dirá, mas naturalmente que nem tudo foi um desastre absoluto. Talvez aí Sócrates consiga ter alguma razão e daqui a algum tempo algumas pessoas reconhecerão alguns pontos positivos. Fica a aposta nas energias renováveis? O referendo do aborto? Fica o esforço de modernização da administração pública? O casamento homossexual? Fica a diplomacia económica? A ver vamos.
A melhor intervenção que ouvi do lado socialista naquela noite foi a de Manuel Alegre. Falou bem. Reconheceu a necessidade de se alterar qualquer coisa no sistema político, de se abrir a política à cidadania nomeadamente através da possibilidade de listas independentes se candidatarem a lugares no Parlamento. A crise e a Troika não deixarão grande espaço pelo menos para já, mas no longo prazo o PS deveria apresentar uma agenda de reforma do sistema eleitoral e de abertura clara à sociedade. Por exemplo admitindo a possibilidade de votar em deputados e não em partidos ou pelo menos um sistema misto que permita ao cidadão escolher o seu representante. Mais, abrindo a possibilidade de listas independentes se candidatarem ao parlamento e revendo as questões de financiamento de campanhas e de espaço na comunicação social de forma a acabar com a discriminação dos mais pequenos.
Igualmente importante e pouco falado, o PS deveria reforçar a sua vocação europeísta e trabalhar junto de outros países para estabelecer pontes. A UE vive em clima de desintegração, de ameaça de ascensão nacionalista e de profunda deriva política e económica. É mais do que urgente repensar o modelo europeu, traze-lo de volta às suas raízes sociais e impedir que a finança global tenha o poder de destruir economias nacionais de um dia para o outro pondo em causa milhões de vidas. Há muitos outros temas que interessaria ao PS discutir internamente. Falo por exemplo de um combate sério e eficaz à corrupção. E falo também de reduzir privilégios, despesismos e benefícios de forma a credibilizar a classe política, a administração estatal e as empresas públicas junto da sociedade.
Infelizmente tudo aponta a que nada disto seja pensado e tudo o que parece preocupar os interessados é apenas quem vai assumir a liderança. Como já referi, parece-me bem mais importante debater uma agenda do que escolher um líder pois o problema não é só a forma, é também muito o conteúdo. Mas bem, isto não é o meu campeonato, apenas me parece uma boa oportunidade para se alterar o rumo. Ficará à consciência dos militantes socialistas. Aguardamos os próximos desenvolvimentos.
PS: A única vez que falei com Sócrates foi em Cabo Verde numa visita oficial do Governo pouco antes das eleições de 2009. Citou Vinicius de Morais e surpreendeu-me. Estava preparado, já se sabe. Ainda assim caiu muito bem. Mais tarde ouvi na televisão uma ou outra referência dele à música e à poesia brasileira. Parece que é apreciador. Não resisto então em deixar-lhe uma canção nesta hora de despedida. Aqui vai.
“Bye bye, Brasil
A última ficha caiu
Eu penso em vocês night and day
Explica que tá tudo okay
Eu só ando dentro da lei
Eu quero voltar, podes crer
Eu vi um Brasil na tevê
Peguei uma doença em Belém
Agora já tá tudo bem
Mas a ligação tá no fim…”
Chico Buarque