Bye, bye, José!

8 Jun

No rescaldo da noite eleitoral de Domingo, José Sócrates assumiu a responsabilidade da pesada derrota e abandonou a liderança de um PS que era seu desde 2004. O que mais gostei dele durante este tempo todo foi sem dúvida o seu discurso de demissão. Tranquilo, humilde, apaziguador, talvez feliz e aliviado por deixar de ser primeiro-ministro, Sócrates deixou a porta entreaberta para um eventual regresso à política. Usou também de um toque à la Fidel Castro, muito ao estilo do célebre a história absolver-me-á, e até parecia farto da encenação política que tanto abunda no PS.

O balanço deste governo e desta liderança começará agora a ser feito. O que ficará para a história só o tempo o dirá, mas naturalmente que nem tudo foi um desastre absoluto. Talvez aí Sócrates consiga ter alguma razão e daqui a algum tempo algumas pessoas reconhecerão alguns pontos positivos. Fica a aposta nas energias renováveis? O referendo do aborto? Fica o esforço de modernização da administração pública? O casamento homossexual? Fica a diplomacia económica? A ver vamos.

Sem dúvida que esta demissão terá sido um alívio para muita gente, mesmo no campo socialista. O PS transformou-se numa orquestra de obedientes músicos que de tanto treino sinfónico adquiriram reflexos Pavlovianos. Tais que, mesmo na hora da despedida e do alívio, os muito sincronizados apoiantes insinuaram um ruidoso descontentamento com a partida, ao ponto de Sócrates pedir silencio para não se tornar a questão mais difícil. Mais problemático do que o culto do chefe, o PS transformou-se num partido complacente com a intriga, com o oportunismo, com a falta de ética e de valores. Aceitou e deu espaço nas suas fileiras a gente que usou o estado e a causa pública para beneficio próprio. E tornou-se num partido gelatinoso, sem doutrina nem caminho a seguir e esquizofrénico ao ponto de proclamar uma coisa e fazer exactamente o seu contrário com a mesma convicção.

Assumir os problemas sem rodeios será o primeiro passo para os enfrentar. Além disso, esta será porventura uma boa oportunidade para o PS se repensar enquanto partido. Será uma boa oportunidade para reflectir sobre o seu futuro. Se quer ser um partido de carreiristas e de jotas e ex-jotas obedientes e ziguezagueantes ou se quer ser um partido com valores, que entende a sociedade e os seus problemas e que apresenta soluções nesse sentido. Fala-se agora dos nomes de Francisco Assis, de António José Seguro e de António Costa. Não tenho grande opinião sobre o assunto, nem tenho de ter pois caberá ao próprio partido decidir qual o caminho que pretende trilhar. Creio, contudo, que mais do que uma cara, o PS precisa de uma agenda e de uma agenda de mudança clara. O período é bom. O PS vai fazer a sua travessia no deserto e nada melhor do que agora para se limpar a casa. Os oportunistas afastar-se-ão naturalmente, já não cheira a poder e como tal já não há lugares para distribuir. Além disso o expectável longo período de oposição permite que se faça um debate sério e sem pressas.

A melhor intervenção que ouvi do lado socialista naquela noite foi a de Manuel Alegre. Falou bem. Reconheceu a necessidade de se alterar qualquer coisa no sistema político, de se abrir a política à cidadania nomeadamente através da possibilidade de listas independentes se candidatarem a lugares no Parlamento. A crise e a Troika não deixarão grande espaço pelo menos para já, mas no longo prazo o PS deveria apresentar uma agenda de reforma do sistema eleitoral e de abertura clara à sociedade. Por exemplo admitindo a possibilidade de votar em deputados e não em partidos ou pelo menos um sistema misto que permita ao cidadão escolher o seu representante. Mais, abrindo a possibilidade de listas independentes se candidatarem ao parlamento e revendo as questões de financiamento de campanhas e de espaço na comunicação social de forma a acabar com a discriminação dos mais pequenos.

Igualmente importante e pouco falado, o PS deveria reforçar a sua vocação europeísta e trabalhar junto de outros países para estabelecer pontes. A UE vive em clima de desintegração, de ameaça de ascensão nacionalista e de profunda deriva política e económica. É mais do que urgente repensar o modelo europeu, traze-lo de volta às suas raízes sociais e impedir que a finança global tenha o poder de destruir economias nacionais de um dia para o outro pondo em causa milhões de vidas. Há muitos outros temas que interessaria ao PS discutir internamente. Falo por exemplo de um combate sério e eficaz à corrupção. E falo também de reduzir privilégios, despesismos e benefícios de forma a credibilizar a classe política, a administração estatal e as empresas públicas junto da sociedade.

Infelizmente tudo aponta a que nada disto seja pensado e tudo o que parece preocupar os interessados é apenas quem vai assumir a liderança. Como já referi, parece-me bem mais importante debater uma agenda do que escolher um líder pois o problema não é só a forma, é também muito o conteúdo. Mas bem, isto não é o meu campeonato, apenas me parece uma boa oportunidade para se alterar o rumo. Ficará à consciência dos militantes socialistas. Aguardamos os próximos desenvolvimentos.  

PS: A única vez que falei com Sócrates foi em Cabo Verde numa visita oficial do Governo pouco antes das eleições de 2009. Citou Vinicius de Morais e surpreendeu-me. Estava preparado, já se sabe. Ainda assim caiu muito bem. Mais tarde ouvi na televisão uma ou outra referência dele à música e à poesia brasileira. Parece que é apreciador. Não resisto então em deixar-lhe uma canção nesta hora de despedida. Aqui vai.

“Bye bye, Brasil
A última ficha caiu
Eu penso em vocês night and day
Explica que tá tudo okay
Eu só ando dentro da lei
Eu quero voltar, podes crer
Eu vi um Brasil na tevê
Peguei uma doença em Belém
Agora já tá tudo bem
Mas a ligação tá no fim…”

Chico Buarque

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