Os meus sonhos não cabem nestas urnas

1 Jun

Pois, pá, porque no tempo deles havia fome, guerra e repressão, havia tudo e mais alguma coisa e agora não há nada disso. Agora está tudo bem. Afinal há emprego para todos, cada vez há mais acesso à saúde e à educação, o sistema político cada vez mais nos representa a todos e pauta-se sempre por uma enorme qualidade de intervenção. Sim, claro, no tempo deles é que a vida era difícil, a malta tinha valores, batia-se por grandes ideiais e até os músicos de intervenção tinham outra qualidade. Sim, claro, somos todos uma cambada de poltrões, devemos ficar em casa porque é muito aborrecido para eles tantas manifestações, tanta desordem e acima de tudo devemos votar nos mesmo de sempre porque afinal está tudo bem e o problema somos nós nunca os outros. Nós é que fomos mal educados pelos nossos pais que nos deram tudo o melhor que puderam. Nós é que percebemos mal na escola quando ouvimos dizer que a Europa era um continente de prosperidade, de dignidade humana e de defesa dos direitos humanos. Nós é que fomos enganados pela ideia de que toda a gente tem direito ao trabalho (e já agora com direitos). Tudo parvoíces sem jeito nenhum que nos impingiram ao longo da nossa curta vida. E pior que tudo, nós é que vivemos na ilusão de poder ter sonhos. Pedimos então desculpa pela ousadia. Vá, desculpem-nos por qualquer coisinha. Vamos já desmontar a tenda e procurar um trabalhito ali no call center porque a vida não está nada fácil…

O liricismo soixante-huitard, mesmo quase meio século depois, continua muito difícil de bater. Não é aliás por acaso que a melhor frase que surge do M15 nas Portas do Sol, nuestros sueños no caben en vuestras urnas, seja frequentemente associada ao espírito do Maio de 68. A comparação tem muita razão de ser quando se fala de estilo, basta ver por exemplo a célebre si les élections devaient vraiment changer les choses il y a longtemps qu’elles auraient été interdites, para serem encontradas imensas semelhanças de forma. Contudo, se atentar-mos ao conteúdo das duas frases só os mais desatentos poderão achar que estas significam algo de semelhante. Vejamos então com atenção.

A segunda expressão bebe claramente do espírito anarco-libertário dos anos 60. Subentende que os processos eleitorais eram uma forma da burguesia continuar a exercer o seu papel dominante no sistema de classes e por isso criticava violentamente a chamada democracia burguesa. As alternativas para este espírito crítico passavam pela colectivização dos meios de produção, pela autogestão dos sistemas produtivos e pela destruição do estado e das suas instituições e consequente auto organização da sociedade em assembleias (de bairro, de fábrica, etc…). Daí o slogan que ainda vemos pichado por alguns locais, nem estado nem capital. Em matéria eleitoral os seus defensores apelavam à abstenção como forma de contestar a legitimidade do sistema vigente.

Por seu lado, a primeira expressão, que serve de título deste texto, vem numa linha bastante diferente da anterior e relaciona-se com a recente ascensão política e social da chamada sociedade civil. Epifenómenos desta ascensão são muitos e têm vindo a ganhar imensa força e espaço, basta ver por exemplo a candidatura de Fernando Nobre, o Movimento 12 de Março ou o M15 Espanhol apenas para referir os momentos mais mediáticos e recentes. A ascensão na sociedade civil tem raízes no profundo desencanto com a democracia representativa e com os seus protagonistas. O fenómeno ainda é relativamente recente, o que deixa espaço para muita indefinição em termos de objectivos e de estratégias de actuação. O que é certo, contudo, é que já ninguém pode assobiar para o lado e que o poder institucionalizado já não resiste em lá ir meter a pata sempre que pode. Exemplos disso são a contratação de Fernando Nobre para as listas do PSD ou a tentativa de instrumentalização Bloquista no seu slogan se gostaste do 12 de Março, faz o teu 5 de Junho. Em épocas eleitorais o caso torna-se complicado, pois os movimentos da sociedade civil tendem a desagregar-se dada a sua natureza heterogénea.   

E é aqui a frase nuestros sueños no caben en vuestras urnas aparece e encaixa que nem uma luva. Ele transpira do imaginário de uma geração que anseia tomar as rédeas do seu futuro e que não se sente de forma alguma representada pelas estruturas tradicionais, em particular pelos partidos. Ora quando se chega a um período eleitoral, em particular às legislativas, e as escolhas possíveis são precisamente os partidos que não nos representam, a situação é no mínimo frustrante. O apelo, não se enganem, não é abstencionista. Não sou adepto da abstenção, pelo menos da voluntária. Também não sou apoiante do voto branco, acho uma parvoíce desperdiçar esforço e tempo para que tudo continue na mesma. Ainda se este pudesse eleger lugares vazios talvez esta opção pudesse fazer algum sentido, agora como o actual sistema funciona é uma inutilidade e apenas serve para limpar a consciência dos seus praticantes. O mesmo se aplica ao voto nulo, onde a única diferença é que o eleitor rabisca alguma coisa do tipo viva el-rei, poder ao povo ou alguma expressão insultuosa endereçada aos detentores do poder político. A lógica tem de passar, e têm saído algumas propostas nesse sentido, por aprofundar o processo democrático com a abertura da sistema político à cidadania, com a redução da distância entre eleitores e eleitos, com a moralização da classe política, entre outras. Será naturalmente um longo caminho a percorrer, mas é sem dúvida algo que a sociedade necessita como de pão para a boca.

As comparações históricas podem por vezes ser úteis mas raramente podem ser feitas de modo honesto e imparcial, faço desde já o meu mea culpa. Sobre os recentes movimentos da sociedade civil, em particular os liderados pela juventude tenho visto uma série de parvoíces publicadas. Normalmente quem compara a história são os renegados dos movimentos passados que tentam de alguma forma justificar a sua atitude enquanto ex-jovens rebeldes. O discurso de muita desta gente que inunda as colunas dos jornais anda algures entre o velho-restelismo puro e a filosofia de taxi tão tradicional no nosso quotidiano. Frases como no meu tempo é que era, ou os jovens são uns mimados ou qualquer outra coisa do género são muito comuns de se ler ou ouvir. Para juntar à festa, são também precisamente aqueles que antes criticavam a aparente apatia da juventude que agora se insurgem perante tanta movimentação. Talvez seja a crise da meia-idade que faz com que estes não saibam bem o que defendem ou talvez seja uma espécie de reaccionarismo genético que os faz estarem constantemente contra tudo e o seu contrário.

Tenho obviamente todo o respeito e admiração por todos os movimentos que ajudaram a construir e a cimentar muitas das conquistas políticas, sociais e económicas que temos hoje, apesar de tudo. Mas isso não invalida que eu não esteja nos antípodas dos seus ex-protagonistas em termos de discurso actual. Os defensores do status quo utilizam muitas vezes o discurso do medo para se legitimarem e para legitimar um sistema que aparentemente os beneficia. Quando se coloca em causa a democracia representativa tal e qual a temos hoje logo se levantam vozes da ameaça de ascensão do totalitarismo. Para essas cabeças contestar o actual sistema só pode resultar numa ditadura seja ela de esquerda ou de direita. Talvez seja compreensível que quem viveu numa ditadura e assistiu à Guerra Fria tenha um certo receio de regresso ao passado e que considere o actual sistema o melhor resultado possível de um longo processo histórico que custou muito suor e muito sangue. Mas isso é o passado, e com todo o respeito que todos temos pelas grandes conquistas do passado, cabe-nos agora a responsabilidade de olhar e de pensar o futuro.

A solução nunca poderá passar por velhas ideologias, por velhas formas de organização, por um regresso ao passado que alguns saudosistas ideológicos ainda defendem. As soluções do séc. XX e muito menos as soluções do séc. XIX dificilmente podem ser aplicadas hoje em dia e não faz nenhum sentido perder tempo com isso. A história é fundamental para compreendermos como chegamos até aqui mas temos de perceber que o futuro passa pela nossa capacidade, criatividade e imaginação de criar um novo sistema económico e político onde os nossos sonhos possam lá caber.

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Uma resposta to “Os meus sonhos não cabem nestas urnas”

  1. Lisboa 1 de Junho de 2011 às 10:33 PM #

    Saiste.me cá um animal. Tenho um texto bom para leres, O Emproado. muuahahahah.

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