A antiga 4ª classe

31 Maio

Ainda há pouco tempo, a investigadora Margarida Gaspar de Matos dava conta de a escolaridade da mãe ser o melhor preditor de saúde pública. Na prática, isso significa que uma mãe escolarizada mexe-se melhor no sistema se saúde e no de educação. A primeira mensagem a retirar daqui é que as vantagens da escolarização conferem benefícios pessoais. Como ninguém obstará, o colectivo, ou seja, a totalidade dos portugueses também ganhará se a generalidade de nós for capaz e tiver interesse em aprender alguma coisa. O uso do termo aprender não é ao acaso: dá margem para incluir as mais diversas competências, em contexto formal ou não, assim como sugere que um diploma, por si, não significa a posse de conhecimento. Analfabetos, analfabetos funcionais, níveis reduzidos de literacia (financeira inclusive!) serão a todos os títulos contraproducentes.

Num trabalho de investigação como os que têm sido conduzidos pelo grupo de investigadores em que se insere a referida cientista, não obstante as inúmeras possibilidades metodológicas existente, no geral a produção de informação seguirá um determinado princípio chave. Por exemplo, pela aplicação de um questionário, consegue-se a recolha de informação sobre um conjunto de itens previamente definidos. O respondente dá conta das suas opiniões e atitudes e, à partida, esta recolha de dados terá intuitos de representatividade face ao grupo ou grupos que se está a analisar para que as conclusões não se fiquem apenas pelo grupo inquirido. Segue-se uma fase de obtenção de informação, que obviamente depende-rá do desenho de toda a pesquisa.

No seio da análise sobre as percepções das mães quanto a certos aspectos em concreto, o que à partida se fará é, em função dos níveis de escolaridade da mãe, criar grupos de comparação e perceber, através de testes estatísticos, se ocorrem diferenças significativas face às opiniões e atitudes revelados pelo todo em função do critério definido. Portanto, o estatuto de trabalho científico advém do cumprimento de uma série de requisitos formais, entre os quais saber-se como e quando foram obtidos os dados e através de que meios. Transparência é, também, condição de base para que um trabalho seja aceite e as suas conclusões validadas. Repare-se que não estou a apresentar o estudo em causa, apenas a dar conta, de forma muito genérica, de como se processa este jogo. Faço-o para evidenciar que, se bem feito, é algo que está noutro patamar e que não advém, unicamente da vontade dos deuses, da leitura de cartas ou fruto do acaso. Nestas e noutras esferas concretas, está nas nossas mãos mudar o estado das coisas. Um estudo científico, à partida, dará apenas conta de como se processa a realidade.

Claro que quando surge existe a divulgação pública de resultados de investigações científicas, a gama de reacções é mais lata que os métodos e técnicas de recolha de dados disponíveis. Não raras vezes é atribuído pouco crédito a estes trabalhos ou simplesmente se ridiculariza as conclusões obtidas. Pedir que se analise para lá da própria notícia é algo para que não há espaço, a média dos leitores não fará tal exercício, nem terá interesse sequer. Portanto, a divulgação científica é importante, mas pode ser contraproducente, sobretudo porque inúmeras vezes os media actuam numa lógica de, quanto mais excêntrico, melhor! Por fim, não deixa de ser curiosa a revelação do cientista que todos temos em nós: agarrando novamente na asserção inicial, pois se a escolaridade funciona como preditor de aspectos de saúde pública, qualquer um ficará tentado a referir uma mão-cheia de mães que não alcançaram níveis de escolaridade elevados e são exímias nas suas movimentações no sistema de educação e de saúde. Alguns certamente apresentariam ainda um leque de mães semi-analfabetas que, reconhecidamente, são portentos no tocante a indicadores de saúde pública. Estas excepções que fazem a nossa tão prezada regra também estão previstos na estatística: chamam-lhes outliers. Mais, o mecanismo funciona ao contrário também. Uma conclusão daquele tipo não significa que entre as mães mais escolarizadas não existam casos de menor capacitação, não serão é certamente tão comuns tais casos.

Pegue-se na hipótese da educação como preditor e aplique-se a quantos campos se conseguir imaginar. Esse exercício estará já feito em determinadas esferas. Pense-se no empresariado, pense-se nos utentes das vias públicas e seus comportamentos, pense-se nos cidadãos, no seu posicionamento nos actos eleitorais e na qualidade da nossa democracia, pense-se novamente em indicadores de saúde pública, pense-se no grau de civismo, pense-se nos problemas sociais e económicos que nos afectam, pense-se na produtividade que tanto queremos melhorar e que não varia à razão apenas do número de horas de trabalho. A educação, que é preditor para uma gama muito variada de situações, tem sido referida como o nosso défice, um défice que é já secular e que explica ou é razão para muitas das nossas dificuldades. É um mau preditor também o facto de a própria educação, genericamente, ser tratada com tanto descuido. Contudo, esse é um indicador primeiro de que este é um país sem um projecto de futuro, em gestão corrente, sem preocupação de deixar de ser bárbaro rapidamente, sempre ancorado ao passado e a dar vivas a um tempo que, a vários níveis, não terá sido assim tão bom e hipotecou parte do nosso presente.

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