A paródia eleitoral

29 Maio

cartoon de Henrique Monteiro

Aqui vamos nós, mais uma campanha eleitoral, as mesmas caras de sempre, os mesmos discursos opinando sobre tudo e todos, atirando pedras à direita e à esquerda, discutindo tudo excepto o que realmente interessa: propostas políticas concretas e uma resposta para a crise que corroí o país.
E é vê-los, candidatos resplandecentes e sorridentes tal Misses Portugal, pavoneando-se entre o povo, distribuindo beijinhos e abraços e criticando tudo, desde a escolha da cor da camisa, às vidas pessoais e até feitio dos outros candidatos.

Paulo Portas, já reparou que para conseguir votos não deve recorrer a ataques pessoais, enquanto os outros candidatos se digladiam na praça pública (afinal de contas, o jogo da ‘supremacia moral’ funcionou tão bem com Cavaco!), Portas, de lição bem estudada, vai moldando os seus discursos à assembleia. E é vê-lo com bonés diferentes todos os dias, a comer enchidos e a beber uma bela malga de verde tinto às 10 da manhã enquanto critica o PS e o PSD pela incompetência ao mesmo tempo que se procura vender como a única alternativa credível ao bloco central. Quase esquecemos que este senhor, para além de forjar gráficos nos frente a frente com outros partidos, esteve no governo de 2002-2005, e que quando realmente teve oportunidade para somar propostas de lei e mudar algo, preferiu somar os casos muito mal contados dos submarinos e comprovar a sua conduta éticamente superior surripiando 60 mil páginas, nas quais estariam incluídos segredos de estado, que meticulosamente fotocopiou antes de abandonar as funções de ministro da Defesa e Estado. Antecipou-se a Assange perguntarão os leitores? Não, que se saiba o único beneficiário de tal informação foi o próprio.

Já Passos Coelho, a.k.a. MC Passos, afirmou ser ‘o mais africano de todos os candidatos ao Parlamento’ acrescentando ainda que terá casado com África. Ora numa altura em que todos os votos contam – sobretudo numa fase em que as sondagens registam empates técnicos ou diferença de escassos pontos percentuais entre PS e PSD – percebe-se a obsessão do candidato social-democrata pelas minorias,  já o facto de incluir a esposa e a filha no jogo político parece-me de intenção mais duvidosa. Os casos das críticas ao programa Novas Oportunidades e da revisão da lei do aborto (projecto lei pelo qual tinha votado a favor) foram mais um tiro no pé numa campanha que se tem revelado acidentada. O programa Novas Oportunidades conta com 1 489 845 inscrições e 456 716 certificações desde 2006 (Fonte: Agência Nacional de Qualificações (ANQ) em Novembro de 2010) logo, os inscritos que exercerem o direito de voto dia 5 de Junho não premiarão as criticas da parte do PSD. Já na questão do aborto, Passos Coelho poderá até conquistar os votos dos sectores da sociedade contra este mas perderá seguramente os do eleitorado flutuante das grandes cidades, sim, esses mesmos que geralmente resolvem as eleições.

José Sócrates contra atacou com a ‘contratação’ de imigrantes Paquistaneses e Indianos aos quais paga transporte e comida para que o sigam de comício em comício, enquanto oferece bilhetes para o Sea Life do Porto a militantes e apoiantes de Penafiel que o venham apoiar no comício portuense. Ninguém gosta de falar para uma sala vazia! Inicialmente, o PS afirmou que não iria fazer a tradicional campanha com outdoors. Numa altura em que o país estava em crise, o partido iria apostar numa ‘campanha com redução substancial de custos’. Estranhamente os outdoors vão aparecendo por aí e parece-me que PS e PSD devem ter sido ludibriados pelo mesmo designer gráfico que lhes impingiu uma promoção ao estilo pague 1 leve 2.

A uma imagem e discurso desgastado, Sócrates tem vindo a acrescentar falhanços consecutivos. No frente a frente com Passos Coelhos foi-se repetindo inúmeras vezes atacando o seu oponente com discurso do ‘bota-abaixismo’, do ‘always look on the bright side of life’, etc, etc. Corrijam-me se estiver enganada mas…acabamos de pedir ajuda externa por não termos capacidade de resolver os problemas internamente, estima-se que estiveram 300 mil pessoas nas ruas nas manifestações de 12 de Março e agora temos acampamentos em várias cidades do país. Suponho que para Sócrates estes sejam todos sinais de boa saúde democrática e optimismo?

Mas a verdade é que PS, PSD e CDS, foram, que eu saiba, os únicos partidos que assinaram o acordo com a troika formada pela Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu para uma ajuda financeira a Portugal de 78 mil milhões de euros a três anos. No entanto, e porque é sempre mais fácil atribuir culpas do estado lamentável a que chegamos a elementos externos, em período de campanha, os partidos sofreram um fulminante lapso de memória, e atacam-se mutuamente com a cartada da parceria com a troika. PS acusa o PSD por ter desencadeado o processo de pedido de ajuda, dito desnecessário, ao rejeitar o PEC IV. Por conseguinte, PSD contra-argumenta que, independentemente da aprovação, o país teria de pedir ajuda externa e atribui o Óscar de melhor actor a Sócrates pelo seu papel de prima donna destroçada pelo estado do país e o CDS critica PS e PSD como se nada tivesse assinado.

O PCP, com Jerónimo de Sousa igual a si próprio, lá vai repetindo os mesmos argumentos de sempre. As campanhas vão-se sucedendo mas o discurso continua o mesmo, centrado no desemprego, precariedade e salários. O caso das escadas monumentais em Coimbra terá sido o único acidente de percurso, com Eduardo Melo, presidente da AAC a lamentar “que esteja a ser danificado património da Universidade” num momento em que a instituição concorre com o conjunto arquitectónico da Alta a Património Mundial da UNESCO.

O BE de Francisco Louçã, ainda corre atrás do prejuízo criado nas últimas eleições presidenciais. A moção de censura ao governo surgiu como tentativa de purgar quaisquer resquícios remanescentes da associação com Manuel Alegre e PS. Segundo uma sondagem do Expresso os eleitores encararam a moção como uma jogada oportunista numa altura em que se sabia que a sua viabilização seria praticamente impossível e o BE, que deveria defender a aprovação da moção ia fazendo diagnósticos da sua rejeição. Alegre foi, sem dúvida, um erro crasso que os eleitores não estarão dispostos a esquecer tão cedo, uma estratégia infeliz que fez tremer a estrutura do Bloco e corrompeu a imagem de alternativa política à esquerda.
Paralelamente urge-se um programa económico concreto e viável dos partidos mais à esquerda, tanto BE como PCP apresentaram propostas semelhantes onde se denotam numerosas fragilidades. Não é o BE a favor da Europa? Então como se pode defender a reestruturação da dívida? Isso afastaria-nos do projecto europeu. Não podemos simplesmente pedir um estatuto excepcional no nosso caso – ‘Ora olhem lá para o lado durante uns aninhos enquanto indireitamos o nosso país com o vosso dinheiro e nós já voltamos!’ Não estou a dizer que é boa ou má solução, estou a dizer que as duas são incompatíveis. A imagem transmitida seria a de que a UE estaria a desintegrar-se.

A campanha eleitoral faz-me lembrar daquelas noites em que se muda de canal e o programa é sempre o mesmo. Se na SIC temos um reality show, então na TVI e na RTP1 vamos ter exactamente o mesmo modelo de ‘junk/ fast food TV’. Sem excepção, o discurso dos candidatos é, sensivelmente, o mesmo. As eleições em Portugal ganham-se não porque os projectos eleitorais são mais sustentáveis e coerentes do que os dos opositores, qualquer sondagem à boca das urnas revelaria que a maior parte das pessoas não faz ideia dos pacotes eleitorais propostos, mas pela quantidade de beijinhos, se o rapaz é simpático ou tem bom porte ou mesmo a capacidade como orador todos estes parâmetros são de análise prioritária e sobrepõem-se a qualquer medida apresentada.

De polémicas e argumentos para telenovelas está esta campanha repleta, resta saber ‘Onde pára a Política!’ e as sequelas deste filme já são muitas.

Não deveriam ser adoptados como temas centrais da campanha questões fracturantes como a dívida soberana, o défice ou o pedido de ajuda externa? E falar sobre propostas anti-corrupção, financiamento dos partidos mais transparente ou mesmo sobre o estado da justiça no nosso país? Mas acima de tudo, e antes de qualquer promessa eleitoral, deveriam clarificar, de uma vez por todas, que o papel de Portugal na UE já não é o de um estado soberano (se é que alguma vez foi) e que o que vai acontecer, independentemente do vencedor das legislativas, é que o nosso pais, à beira mar plantado, vai começar a ser governado via wi-fi. Mas esse discurso não ganha votos.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: