De visita a Portugal com uma rápida passagem pelo Rossio

25 Maio

Passei esta última semana em Portugal e amanha por volta das 6 da manhã apanharei o avião de volta ao norte. Passei uns dias no Porto, outros em Lisboa, desenterrei projectos antigos e deixei outros em lume brando à espera de melhores oportunidades. Visitei amigos, poucos pois o tempo foi curto, e familiares. Os regressos a Portugal após temporadas mais ou menos longas noutras paragens são sempre um misto de emoções e de pensamentos. Por um lado é sempre bom rever e reviver as vicissitudes do nosso país. Mal ou bem há algo que nos pertence e por mais longe que esteja nunca deixo de acompanhar o que por aqui se passa. Por outro lado parece-me sempre que há uma nuvem pesadíssima de pessimismo e de desesperança que mal o avião aterra recai sobre os meus ombros. Acontece-me frequentemente sempre que cá volto e às vezes indago-me se serei eu que vivo noutra realidade ou se serão todos os outros que vivem em pessimismo constante. Há razões para esse pessimismo como é óbvio, mas mesmo assim, se se pensar bem, a maioria dos países do mundo estão em iguais ou piores condições e não me parece que esta onda de derrotismo se estenda a todos esses locais.

Estamos em crise? Pois claro que estamos. Ainda assim, desde que eu me lembro, o país nunca esteve de outra forma. No tempo do Guterres descobrimos o pântano. Mais tarde com Durão Barroso entramos na fase da tanga. Durão emigrou e foi substituído por Santana Lopes que sem ter tempo para grandes aventuras não se livra do estatuto de campeão da incompetência. E agora com José Sócrates o país afunda-se na bancarrota. A minha experiência de vida não me permite ir mais longe no raciocínio. Creio que a minha primeira grande memória política foi a vitória de António Guterres. Tinha 10 anos e lembro-me de ver umas senhoras vestidas de rosa na televisão a festejar o fim do Cavaquismo. Acho que me foi indiferente na altura. Pouco percebia do que se estava a passar e só uns anos depois viria a perceber as razões de tal festejo.

Mas voltando ao presente e à minha visita a Portugal, destaco com alguma satisfação o movimento que inspirado no protesto de Madrid se estendeu a várias cidades Europeias, entre elas Lisboa e Porto. Foi talvez um dos poucos rasgos de inconformismo que assisti. Quando deixei Portugal, em meados de Fevereiro, o momento político prometia alguma mudança. Os Deolinda faziam furor com o Parva que eu sou e o que mais tarde se viria a chamar Movimento 12 de Março começava a preparar-se nos bastidores pouco antes do boom na comunicação social. Tive alguma pena de me ir embora nessa altura. Quando ouvi pela primeira vez a música dos Deolinda percebi logo que aquilo era a faísca que precisávamos para lançar a questão da precariedade para a ordem do dia e quem sabe organizar um movimento genuinamente oriundo da sociedade civil com capacidade para influenciar politicamente. Daí até aos primeiros contactos foi uma questão de dias e os burburinhos que se ouviam aqui e ali há já muitos meses ganharam substrato e consistência. Foi neste contexto que deixei Portugal em Fevereiro e ao voltar 3 meses depois esperava sinceramente ver muito mais. A História tem destas coisas. Para haver mudança real não basta haver apenas momento político, é preciso um pouco mais. Mas bem, não vou aqui nem agora reflectir sobre as causas desta aparente atrofia social. Não seria honesto da minha parte apresentar qualquer reflexão profunda baseada em poucos dias de experiência in loco e de umas quantas conversas soltas.

Nos dias em que estive em Lisboa tive a oportunidade de presenciar duas “Assembleias Populares”. Fiz questão de marcar presença independentemente de não saber bem o que se queria fazer daquilo, aliás como é muito hábito em situações semelhantes. Das RGAs do secundário às Assembleias Magnas da AAC, dos Conselhos de Repúblicas de Coimbra às assembleias de acampamento de manifestações anti-G8 ou da política mais formal à organização de campanhas eleitorais sempre fui presença assídua, umas vezes mais interventivo outras vezes mais na expectativa. E foi precisamente na expectativa que assisti a estas duas sessões populares no Rossio. Vi imensa coisa e não vi muitas outras coisas que esperava ver e reencontrei velhos e novos amigos e conhecidos destas andanças.

No plano simbólico vi a praça inundada de sorrisos e corações cheios de esperança, de ambições desmedidas de se falar desta revolução e de humildade na hora de se cozinhar para a comunidade ou de se assegurar a limpeza do acampamento. Vi profundo comprometimento e dedicação de muitos, mas também vi arrogância de alguns outros. Vi figuras solidárias como Garcia Pereira, Jorge Costa, Daniel Oliveira e alguns capitães de Abril e outros veteranos do associativismo, mas vi também figuras menos solidárias como Helena Roseta. Vi generosidade nos contributos financeiros (mais de 500€ nesses dois dias) e vi algum apoio popular. Vi curiosidade nos turistas e vi interesse duvidoso nos carteiristas e traficantes do Rossio. Ouvi gente muito batida a falar e ouvi gente nova nervosa e insegura a pegar no megafone. Vi alguma organização ao se montar um equipamento de som alimentado a gerador e também vi esforço em se tentar regulamentar a assembleia.

No plano político notei a ausência de muita gente partidarizada e notei também a ausência de muita gente que sido presença assídua nos vários movimentos da última década. Os primeiros talvez estejam demasiado ocupados com as eleições e as respectivas campanhas eleitorais. Os segundos talvez estejam emigrados, talvez se tenham reformado ou talvez achem tudo isto folclórico demais para merecer a sua presença. Como é hábito e também muito característico nestes palcos, tradição é tradição, assisti ao feminismo encazinante e semi-organizado basear a sua intervenção num suposto novo acordo ortográfico que tem em conta a diferenciação do género. E, novidade das novidades, aprendi que agora se utilizam xx em vez de @@ nas palavras com género feminino e masculino para incluir também sexualidades alternativas.

Assisti a muitas outras coisas que não vale agora a pena referir. Deixo apenas a minha opinião, agora que me preparo para partir, de que infelizmente este movimento não trará nada de novo e dificilmente conseguirá vingar. A sua profunda colagem ao anarquismo e esquerdismo, com umas pitadas de bloquismo aqui e ali, nunca conseguirá atrair apoios significativos fora deste campo. Um movimento que se acantona em forma e em conteúdo neste espectro está condenado ao fracasso. É assim. Por outro lado esta simbiose entre precariedade e intervenção externa fragiliza e divide muita da força que se poderia criar. A primeira batalha tem tudo para vencer como movimento. Tem ainda algum momento político e tem amplo apoio na sociedade entre os mais variados sectores. Reforçando e extendendo a organização do movimento no plano nacional e no espectro político e apresentando propostas concretas e credíveis, acredito que se poderíam alcançar vitórias históricas.  

Quanto à segunda batalha, não me parece que se consiga chegar a algum lado. Já se sabe que a dívida vai ser reestruturada mais cedo ou mais tarde, seja em prazo de pagamento seja em taxa de juro. Contudo, ninguém até hoje conseguiu apresentar nenhuma proposta alternativa que consiga responder aos problemas do país no curto-prazo. Há imensas mudanças que terão de ser feitas a longo-prazo, principalmente a nível europeu, mas enquanto não existir nenhuma alternativa credível e exequível para responder aos problemas actuais, qualquer movimento não passará de mera contestação.

Fica a ideia engraçada e criativa de se levar a democracia à rua. Fica a experiência de muitos dos seus participantes que pela primeira vez adquiriram alguma formação política. Fica o sonho e o espírito de sacrifício de muita gente que não se conforma com este estado das coisas. E fica principalmente a ideia que a democracia representativa tal como a temos hoje está muito longe de corresponder aos anseios e às necessidades de um país e de uma Europa em profunda crise social, económica e política.

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6 Respostas to “De visita a Portugal com uma rápida passagem pelo Rossio”

  1. Marta Marques 25 de Maio de 2011 às 9:33 PM #

    Eu concordo em muitos aspectos contigo: na realidade há muitos movimentos que nunca vão vingar, mas ao mesmo tempo há novas esperanças e pessoas cheias de ideias. Acho que estamos num momento muito dividido, há quem veja tudo com a típica frase que odeio e acho demagógica “é o país que temos”, no entanto, também vemos nova gente cheia de ideias em várias áreas, não só política e economia, mas também nas artes e ciências. Digo-te vejo muita gente promissora, que o que tem a fazer é tentar contornar o facilitismo de esperar que o Estado os apoie em tudo e ponha mãos à obra.

    Outra coisa que quero mencionar são os movimentos que como dizes, não vêm trazer muita novidade. No dia 1 de Maio, não sendo nem sindicalizada nem partidária de nada, fui dar umas voltas pelo Porto e fiquei muito triste. Cada sindicato festejava no seu local, não se uniram. Cada uma das festas tinha uma adesão de ridículas dezenas, talvez centenas, de pessoas quando poderia haver uma grande manifestação da classe trabalhadora num só local, com a união dos seus sindicatos. Ainda para além disso vi, também num outro local, a manifestação “MayDay” que tinha quase ninguém. Eles queixavam-se, pois. E eu pensei: as pessoas não se preocupam com estas coisas? Mas depois pensei, porque deveriam preocupar-se, acham que sem sensibilização as pessoas vêm como carneirinhos às manifestações? Eu não vejo encontros e divulgação de encontros de modo a que as pessoas falem umas com as outras e percebam o que se passa (talvez até mais no Porto). Por exemplo, nesse mesmo dia havia milhares de estudantes, porque houve aquela missa académica da benção das pastas. Porque não aproveitaram essas pessoas? Não devem sequer ter pensado nisso e falado com as associações de estudantes… Os Universitários seriam dos mais interessados nessa manifestação e ninguém apareceu, no entanto, estavam a sair da missa uns metros mais abaixo. As pessoas não falam umas com as outras, umas acham que quem não concorda com elas ou não é do mesmo “grupo” não vale a pena conversar. Em conclusão, as pessoas não vão estar a ir a uma manifestação só porque um grupinho de pessoas achou que era fixe marcá-la. Acho que falta aqui muita falta de organização, objectivos coerentes e acções realmente interessantes, que agreguem todo o tipo de pessoas sem elitismos. Acho que isto tudo acaba por ter algo a haver com aquilo que escreveste!

  2. Marta Marques 25 de Maio de 2011 às 9:55 PM #

    Lolol “algo a haver” não: algo a ver… Odeio este erro e acabei por escrevê-lo!

  3. Francisco venes 26 de Maio de 2011 às 5:54 PM #

    A política é tramada e fazê-la à esquerda ainda mais xD Haja preseverança para tanta discordância!

  4. Guizucho 27 de Maio de 2011 às 7:43 PM #

    pois, desconhecia esta nova referencia politico-cultural do amigo fred.! nice

  5. Leonor Areal 4 de Junho de 2011 às 1:25 PM #

    Eh pá, tanto umbigo chateia. E a presunção de ter passado por cá dois dias, ter notado a “ausência de muita gente” e ainda por cima conclui que “movimento não trará nada de novo e dificilmente conseguirá vingar”. Para dizer tanta asneira, mais valia estar calado.

    • Frederico Brandão 4 de Junho de 2011 às 4:43 PM #

      Claro minha cara. Eu é que não consegui ver as milhares de pessoas que lá estavam e eu é que não reparei bem na qualidade das propostas que de lá saíram…

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