Revolution.com

22 Maio
 Numa altura em que o relatório anual da Amnistia Internacional põe em evidência os feitos democráticos no Médio Oriente e o papel das redes sociais no desenrolar das revoluções e mobilização de cidadãos, apeteceu-me falar do papel que a internet desempenha na política global. Informação é poder, mas a tecnologia do século XXI veio desencadear uma verdadeira revolução de informação.

Na última década, os movimentos de cidadãos foram, progressivamente, encontrando na internet uma forma para se fazerem ouvir. Desde há muito que o Facebook, Twitter, MySpace, YouTube deixaram de ser simplesmente plataformas de partilha para assumir um papel mais activo no seio das sociedades. São a plataforma, por excelência, para partilha de informação e, por conseguinte, armas de mobilização em massa. Os geeks e os bloggers assumiram o papel de dissidentes e nas redes sociais juntam-se forças de protesto e reinvidica-se justiça. Nada será igual. A dinamização e a proliferação do interesse na política, sobretudo da parte das gerações mais jovens, em muito se deve às actuais crises políticas mas também à facilidade de acesso à informação e à quantidade de meios de divulgação disponíveis.

 As eRevoluções começam com pequenos grupos de pessoas que procuram restaurar a dignidade do povo ao introduzir reformas, liberdade ou justiça social, a partir daí, o fenómeno torna-se incontrolável, a palavra passa, os amigos sugerem a página a outros amigos e o crescimento exponencial do movimento começa. Os intervenientes organizam-se, alinham ideias, discutem a logística dos eventos e tudo isto no conforto das suas casa ou empregos através do acesso a uma qualquer rede social.

Ao abraçar as novas tecnologias e combiná-las com uma estratégia de campanha pioneira, Obama foi talvez o primeiro a tirar proveito do universo .com. A orquestrada campanha de 2004 tornou-o no peso pesado político sobretudo devido à inovadora utilização das tecnologias e plataformas sociais na mobilização e aproximação ao eleitorado. A eficiência e rapidez de propagação do mundo virtual foi posta ao serviço dos problemas do mundo real. Não o tivesse feito, e estaria, certamente, outro candidato sentado na Casa Branca. Mas a pressão mediática e a cobertura da sua campanha foi tal que, eventualmente, acabaria por ser eleito nas primárias como candidato presidencial do partido democrata. E o resto entrou para os anais da história norte-americana.

Obama foi talvez o primeiro mas não o único a inteirar-se do poder das redes sociais. Basta olhar para a relação que governos ditatoriais, tirânicos ou déspotas têm com o Facebook ou o YouTube. O facto das páginas serem bloqueadas e alvo de censura contribui, ainda mais, para as mobilizações e revolta popular. Mas enquanto é fácil controlar e reprimir fisicamente uma manifestação, o mesmo não se aplica ao policiamento do ciberespaço. Para cada página censurada uma outra frequência ou banda é aberta. E quando não são reunidas as condições para os media internacionais fazerem a cobertura do evento, os tweets ou updates nas páginas do Facebook preenchem as lacunas de informação. A resistência faz-se através de computadores portáteis e telemóveis com acesso à rede global. A repressão total e eficiente deixou de existir.
Os sistemas no Médio Oriente estão a descarrilar e há indicadores de que a África subsariana irá trilhar o mesmo caminho. Os recentes acontecimentos são apenas o começo de um processo que vai mudar o Médio Oriente. Como Wael Ghonim, figura central na revolução egípcia, referiu ‘Se quiser libertar uma sociedade, basta dar-lhes a Internet.’

Paralelamente, o Wikileaks veio atiçar a chama democrática e o sentimento de injustiça popular, assim como a necessidade de decisões governamentais mais transparentes. O mediatismo do caso Wikileaks revelou-se crucial no processo que levou à queda dos regimes ditatoriais no Médio Oriente. Ao pôr a nu os escândalos políticos, a incompetência e os gastos desmessurados das famílias políticas, assim como o nepotismo por elas praticado, a plataforma de Julian Assange confirmou, através de documentos oficiais, o que muitos já suspeitavam. E deu provas concretas do abuso de poder exercido ao longo de anos.

As redes sociais surgem, assim, como uma espécie de controlo à autoridade e poder centralizado e a balança começa a pender para o lado dos cidadãos. Num mundo onde a informação deixa de ser exclusivamente controlada pelo poder instituído, os abusos deste tenderão a tornar-se cada vez mais escassos.
De ressalvar que, apesar do ciberespaço cumprir um papel central, no final do dia, continuam a ser as pessoas, a sua coragem, vontade de mudar, espírito de sacrifício, de comunidade e de acreditar num futuro melhor que fazem as revoluções. Foram e são elas que se envolvem em activismo de alto risco e arriscam muitas vezes tudo o que têm, inclusive as próprias vidas, para que uma mudança tenha lugar.

Para rematar deixo-vos aqui uma frase de Jon Stewart (comediante, comentador e activista norte-americano, figura central do Daily Show) que penso que ilustra bem, ainda que de uma forma bastante sarcástica, o poder transcendente das redes sociais no Médio Oriente: “If two speeches and a social media site is all we needed to spread democracy then why did we invade Iraq? Why didn’t we just, I don’t know, ‘poke’ them?”

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