M’ben di fora

12 Maio

Reza a lenda que o funaná tem origem no interior da ilha de Santiago, onde em longínquos tempos o Funa, que tocava gaita (acordeão), e a sua esposa Naná, que tocava ferro (originalmente a lâmina de uma enxada), deram o mote para aquele que viria a ser um dos estilos musicais mais populares em Cabo Verde e no estrangeiro. O interior de Santiago é a região mais africana de Cabo Verde e a explicação para este facto tem a ver com a história do esclavagismo e da colonização. Durante séculos o arquipélago de Cabo Verde foi utilizado como plataforma de tráfico de escravos provenientes do continente africano com destino ao Novo Mundo. Nesta rota, a Cidade Velha era um ponto chave. A primeira capital de Cabo Verde desenvolveu-se em torno de uma estreita baía protegida por colinas relativamente elevadas em toda a sua extensão terrestre de forma a poder defender-se eficazmente da pirataria. Era o ponto de paragem e também de comércio de escravos. Segundo a história oral, alguns escravos conseguiram escapar da Cidade Velha e fixaram-se no interior da ilha onde criaram comunidades. A dureza das condições de vida do interior ofereciam alguma protecção à entrada de brancos nestas comunidades e por essa razão o interior de Santiago sempre manteve uma natureza muito mais africanizada dos que as restantes regiões do arquipélago. O funaná tem precisamente origens nestas comunidades. Durante o período colonial este estilo musical foi reprimido pelas autoridades portuguesas por representar muito da influência africana. Ao invés, a morna por exemplo foi promovida por ser algo mais ocidentalizado, mais próximo do fado e como tal mais em linha com a cultura que se queria Portuguesa. Aliás, não é por acaso que o funaná é interpretado maioritariamente por gente de origem negra, enquanto que a morna tem nos seus intérpretes gente mestiça. Apenas após a independência de Cabo Verde em 1975 e a posterior promoção pelas autoridades nacionais da cultura africana, o funaná começa a ter condições para se expandir. É com a criação do grupo Bulimundo em 1978 liderado por Katchás que o funaná adquire a sua forma moderna com instrumentos eléctricos e uma sonoridade mais elaborada. Katchás é o autor da canção que vos proponho, M’ben di fora, embora hoje a possam ouvir da voz da Lura, dos Ferro Gaita e de muitos outros artistas. Esta canção reflecte a conquista da cidade da Praia pelo funaná vindo do interior. M’ben di fora significa algo como vem do campo ou vem do interior e conta a história da entrada do funaná no meio urbano trazido pelo fluxo de emigrantes do interior para a Praia, primeiro para os subúrbios, onde os recém chegados se instalavam e depois para o centro onde as elites predominavam. Esta é para mim a melhor versão, protagonizada na minha opinião pela melhor banda de funaná, os Ferro Gaita.

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