A Política do Soundbyte

11 Maio

Muitas vezes ouvimos ou lemos histórias épicas, belíssimas e inundadas de heroísmo de um passado que já lá vai e sentimos um conforto na alma por saber que a nossa humanidade se construiu com base em tais actos. Exemplos não faltam e não me parece que seja necessário referir algum para se perceber o que quero dizer. Contudo a história pode ter sido um pouco diferente. Bem sabemos que o tempo tem o dom de apagar as coisas más e de salientar as boas. A memória pode ser bem traiçoeira. Também sabemos que o nosso ADN tem uma certa tendência nostálgica que nos faz ter mais prazer a reviver o passado do que tivemos quando esse passado foi presente.

Utilizo estas linhas introdutórias para contextualizar aquilo que chamo a Politica do Soundbyte, um termo que na minha opinião representa bem a relação actual entre política e jornalismo. Não sou especialista em jornalismo e portanto os peritos que me perdoem qualquer erro de análise ou conclusão forçada. Contudo, a opinião não se pode resumir apenas aos temas em que somos especializados. Já imaginaram um mundo onde só os especialistas em algo podem ter uma opinião?

Bem, a Política do Soundbyte não é mais do que a procura de uma frase forte ou de uma citação polémica de qualquer interveniente para se fazer cabeçalho de notícia ou rodapé de telejornal. Em suma, o jornalismo tenta reduzir uma entrevista, um discurso ou qualquer outra forma de comunicação numa pequena frase. Este tal soundbyte irá ser amplamente divulgado pelos media e sobre ele inúmeros intervenientes irão também produzir declarações que seguindo a mesma linha vão originar outros soundbytes. Os consumidores de notícias irão naturalmente ser influenciados por este ping pong de soundbytes. Esta simplificação jornalística traduz-se em imensos problemas. Quantas vezes já se viram citações descontextualizadas a gerar enormes polémicas? Imensas. Quantas vezes já se testemunhou ao linchamento mediático de pessoas com fraca capacidade de comunicação? Imensas também. Quantas vezes perdemos imenso tempo em batalhas mediáticas de soundbyte em soundbyte quando não há grande coisa de relevo para se discutir? Quase todos os dias. Mas bem, o jornalismo vive assim. E eu pergunto, faz isto algum sentido?

Parece-me então pertinente fazer o paralelismo com o passado. Se em tempos o jornalista procurava a notícia, a verdadeira notícia, com o dever de informar bem presente no seu quadro de valores, hoje o jornalista recebe comunicados de imprensa e utiliza o seu critério para decidir o que se publica e como se publica. Antes a política acontecia e o jornalismo ia atrás, para informar como é seu dever, hoje a política só acontece se houver notícia, caso contrário não vale o esforço. Hoje os partidos têm máquinas e gente preparada para fabricar e influenciar notícias. Os partidos têm redes de influência nos media e os media têm redes de influência nos partidos. Um congresso partidário, por exemplo, já não é um local onde se discute linha política ou propostas a apresentar, um congresso partidário é uma criação mediática para demonstrar a força ou a unidade de um partido ao mundo exterior. Se antes o jornalismo andava atrás da politica, hoje a política anda atrás do jornalismo.

O tempo é o tempo e a sociedade avança, muitas vezes a uma velocidade que não permite tempo de reflexão. Mas há-de chegar a uma altura em que se perceberá que o caminho trilhado não terá sido o melhor. Poder-me-ão dizer que o jornalismo verdadeiro fica caro e a maior parte dos jornais, rádios ou televisões não tem capacidade para suportar os custos de investigar noticias. Também se poderá dizer que o jornalismo hoje não é viável economicamente e que só sobrevive porque usa e abusa da precariedade em grande escala. Tudo isto é verdade. Mas pode o jornalismo contentar-se com esta situação? Onde fica no meio disto tudo o dever de informar com rigor e isenção? E voltando ao primeiro parágrafo, será que esse dever alguma vez existiu?

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