De volta à Geração de 70

10 Maio

Aproveitando o repto do Frederico, que referiu Guerra Junqueiro e Eça de Queirós, ocorreu-me uma associação rápida para recuperar outro dos escritos pertencentes à Geração de 70. Refiro-me ao discurso Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, proferido em 1871 por Antero de Quental durante uma das sessões das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense. Questão de partida: podia ter sido escrito hoje? No essencial e com algumas adaptações, sim. Recuperemos, então, algumas dessas ideias.
Antero sugere a decadência como uma evidência e por contraponto a um período anterior de “força gloriosa e rica originalidade”. Este foi um discurso de contrição de um “peninsular” pelos pecados históricos e a fim de conseguir “emenda” e “regeneração”. Ponto prévio: existem muitos peninsulares elegíveis para este tipo de exercício actualmente. Contudo, existe um pré-requisito: discernimento (já que falta de vergonha e memória selectiva são demasiado comuns).
O registo grandioso do passado português é inculcado à exaustão pelo nosso ensino, ainda que existam dificuldades de aprendizagem várias. De qualquer forma, Antero remete-nos para uma transição para um “mundo inerte”, num “quadro de abatimento e insignificância”. Bem, com juros de 6%, devemos ser considerados, pelo menos, um bom cliente. Será que Portugal já não é contado entre as nações, tal como no século XIX? Duvido. Ainda nos emprestam e isto apenas porque esperam receber. Uma reestruturação da dívida poderá baralhar o posicionamento no jogo dos mercados financeiros do qual aliás não nos soubemos resguardar. Os dias de hoje serão sinais da tal “improcrastinável decadência”? Vejamos alguns dos indicadores utilizados por Antero:
-falta de preponderância nos negócios da Europa: confirma-se, as decisões pertencem a Berlim, Portugal assemelha-se hoje a uma vítima de vendas agressivas, começando pelos brinquedos caros de guerra, conforme classificação do EUA;
-“Nações novas ou obscuras” conquistam influência e perda gradual de extensão de Portugal: sim, a Leste há várias nações novas, algumas das quais obscuras. E há os emergentes, um dos quais o Brasil, nada novo, menos ainda obscuro;
-Portugal é transformado em “espécie de colónia britânica”, através de “cavilosos tratados”: substitua-se britânica por termo mais apropriado;
-centralização uniforme, conducente ao “puro absolutismo”: nem mais, sede em LX, encerramento de diversas “filiais” pelo país, para ganhos de escala, naturalmente, e mais fácil colecta de impostos porque a democracia é uma questão essencialmente formal;
-aristocracia palaciana, nobreza cortesã, cada vez mais afastada do povo e impeditiva da elevação natural de um novo elemento: a classe média, factor fulcral ao desenvolvimento da vida económica: a classe média continua a ser um alvo, a aristocracia é agora representada por certos grupos económicos que cortejam o orçamento e destinam o fim a dar aos recursos existentes;
-conformismo popular, oposto ao espírito de independência na época medieval: não fazer ondas, não questionar, falar pouco, guardar as opiniões, pensar que já foi pior e que tudo é mesmo assim, sempre foi, sempre será. Ah, e uma nova: pagar, porque os prejuízos agora são socializados;
-diminuição da população de forma drástica: actualíssimo, somos um país envelhecido e em que há muito não se dá uma renovação das gerações;
-ausência de produção de um único homem superior na Península, capaz de uma descoberta intelectual nesse período: neste particular, estamos melhor, mas a generalidade dos homens superiores emigra;
Antero afirma que, é sobretudo pela falta de ciência que se desceu. Ignorância e miséria conduzem à depravação dos costumes, o que, com efeito, talvez tenha sucedido. Estaremos a ficar mais bárbaros ainda? Ignorância e sobretudo miséria subsistem a níveis preocupantes. Aqui seguem mais alocuções de Antero:
-corrupção faustosa da vida da corte (novamente, substituir pelo termo apropriado!);
-corrupção hipócrita dos pequenos: sim, tecnicamente parece que se chama tráfico de influências e será exclusiva dos “grandes”. A diferença está apenas na designação: fazer um “jeito” para os pequenos, conseguir um “empurrão” para os grandes;
-é também época das amásias e filhos bastardos: nada de muito diferente, acresce sobretudo a liberalização do divórcio e o casamento dito “por amor”, com os resultado que se conhecem;
-ser rufião passa a ofício admitido: completamente, sobretudo para quem tiver cartão do partido!
Em resumo, para Antero viveram-se três séculos de ausência de vida, de liberdade, de riqueza, de ciência, de invenção e de costumes. Hoje, volvidos mais de 100 anos, teremos mais ciência, mais invenção, mas há uma certa ausência de vida para uma franja alargada da população, a liberdade está, a vários níveis, ameaçada e a riqueza cada vez mais concentrada, desde logo através de um mecanismo chamado taxa de juro. As crises por cá teimam em ser estruturais. Quanto a costumes, somos muito fiéis aos nossos princípios: mudar dá muito trabalho e demora muito tempo se depender apenas de nós.

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