Títulocracias e afins…

8 Maio

Caro Senhor… perdão… Senhor Engenheiro… peço imensa desculpa… Senhor Doutor? Ah, Senhor Professor Doutor… agora sim podemos começar.

Se perdêssemos menos tempo a procurar o título certo para nos endereçarmos a alguém e mais a discutir ideias, conceitos e projectos certamente este país seria bem diferente.
A pequenez dos gestos e mentalidades amplifica-se até atingir proporções desmesuradas.
João de Pina Cabral, antropólogo, descreve os títulos académicos como “símbolos de um novo estatuto burguês”, a par dos “casamentos pomposos, os BMWs pretos, as gravatas brilhantes, os cabelos louros, as férias no Brasil…” A sua linhagem histórica remonta aos “processos de constituição e de chegada ao poder da burguesia nos meados do século XIX”.
Num país onde o ensino superior se tornou amplamente acessível às massas, certas ‘tradições’ deveriam simplesmente cair. Infelizmente, mesmo a geração mais recente insiste em manter o seu status quo. Como se o facto de ser tratado por engenheiro, doutor ou arquitecto lhes desse automaticamente direito de acesso a um star system. Serão estes tão diferentes dos boys que tanto criticamos nos grupos políticos?
A titulo pessoal, uma vez concluído o curso superior, o banco onde possuía uma conta teve a gentileza (e isto sem que o tivesse solicitado) de inserir o título correspondente precedendo o meu nome. Após vários telefonemas onde afirmava veementemente que não utilizaria o cartão até que mo substituíssem oiço, do outro lado da linha: ‘Mas porquê? Qual é o problema? Nós começamos a fazê-lo automaticamente porque vários dos seus colegas nos ligavam a pedi-lo.’ Parece que retirar o Dr. Eng. ou  Arq. do cartão dá mais trabalho do que pô-lo lá. Por muito que se tente explicar que as pessoas valem pelo seu desempenho e valor próprio e não pelo título exibido no cartão, as grandes massas continuam a perpetuar uma situação que atinge dimensões cada vez mais absurdas.

Américo Amorim
Fernando Ulrich, líder do BPI
Rui Nabeiro, dono do império da marca Delta
Rodrigo Costa, Presidente da Comissão Executiva da ZON
Américo Fernandes, director-geral da DHL
António Saraiva, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP)

O que têm em comum para além do seu sucesso? O facto de nenhum deles ter uma licenciatura. Mas basta uma breve pesquisa google para nos apercebermos que os prefixos Dr. ou Eng. aparecem em qualquer colóquio ou evento em que participem.
Como o próprio António Saraiva referiu em entrevista a Ana Rute Silva. “As pessoas não admitem que estejamos em determinados lugares sem sermos doutores ou engenheiros. Cansei-me de dizer que não sou doutor e já me curei, libertei-me, dessa necessidade social”

Esta fixação cega pelos títulos é tal que não concebemos uma relação de respeito pelas hierarquias sem os tais prefixos. É impensável tratarmos um professor pelo nome próprio. Isto mesmo que seja seguido por um ‘João, como profissional de renome e na sua ampla experiência, pode-me explicar x e x?’ Sinal de falta de consideração? Não, chama-se a isto insensatez. Respeito e títulos não estão necessariamente entrelaçados e sobretudo não desta maneira obsessiva.

Parece-me que em Portugal se mede a importância dos indivíduos pela acumulação de prefixos. A ‘títulocracia’ é tão portuguesa como o bacalhau e o fado. Está enraizada de tal forma na nossa sociedade que mudanças de mentalidades parecem improváveis num futuro próximo. A distinção social precede sempre o nome de baptismo e muitos o justificariam como mera formalidade, mas há algo bem mais preocupante que se prende com estes coloquialismos.

A minha intenção não é a de diabolizar os títulos. Mediante as circunstâncias poderão ser aplicados ou não. O problema não são os títulos em si mas a interpretação destes. ‘Se não é Engenheiro, Doutor, Arquitecto ou Professor então é um Zé-ninguém’, infelizmente este é o sentimento generalizado. E é fácil confirmá-lo nos atendimentos em lojas, em bancos ou mesmo nos serviços públicos onde a primeira pergunta não é o nome mas o título. As pessoas sintonizam quando vêem o prefixo no cartão de crédito, e as mordomias associadas à informação acrescentada trazem, obviamente, benesses.
Ora para que tenhamos um desenvolvimento profissional sustentável, há que mudar mentalidades. Esta desvalorização de trabalhos ditos menores está a gerar clivagens entre a população, no respeito pelas profissões e desequilíbrio entre sectores.O desrespeito e desvalorização pelos trabalhos logisticos e artesanais leva a que os jovens procurem apenas cursos que lhes atribuam o grau de engenheiro ou senhor doutor.
As ditas ‘artes’ vão-se perdendo. Mas bons sapateiros, carpinteiros ou empregadas domésticas começam a ser de tal forma escassos que os preços pelos serviços vão sendo inflaccionados, de uma forma ou de outra, o equilíbrio entre profissões vai ser reestabelecido. Os títulos vão-se vulgarizar, os graus vão perder importância e, no final, o que conta não vão ser os graus, títulos ou distinções sociais mas o desempenho, o profissionalismo, o empreendedorismo.

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Uma resposta to “Títulocracias e afins…”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Alguém tem de defender o Rui Tavares « Standard's & People, Pá! - 29 de Junho de 2011

    […] surpreendente rejeição da titulocracia política. A Joana já abordou pertinentemente a questão aqui e neste capítulo só tenho de salutar a chegada a Portugal daquilo que é tão natural em muitos […]

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