O ajuste de contas com a História

4 Maio

A vitória da canção A luta é alegria protagonizada pelos Homens da Luta encheu-me de alegria, desculpem a repetição. Devo confessar que quer a letra quer a música da canção não são particularmente geniais. Creio que ninguém no seu perfeito juízo seria capaz de dizer o contrário. Mas isso pouco importa também. Não é de qualidade musical que se deve falar nesta altura. E mesmo se fosse, há que salientar que a história dos festivais da canção não tem sido feita de grandes cantores ou de grandes canções. As sucessivas representações portuguesas, em particular nos últimos anos, assim o confirmam.

Quando soube da notícia logo me veio à memória a história dos festivais da canção brasileiros, nos finais dos anos 60, em particular a do célebre Festival Internacional da Canção de 68 onde o Chico Buarque e o Tom Jobim arrecadaram a vitória com Sabiá, e o fantástico Prá não dizer que não falei das flores do Geraldo Vandré ficou apenas com o segundo lugar para revolta da plateia (maioritariamente estudantil). Este festival também ficou célebre pela virtuosa aparição de Caetano Veloso no seu É proibido proibir.

O momento político da época exigia aos cantores que se exprimissem politicamente e representassem na sua música as esperanças e os sonhos do movimento estudantil. Qualquer coisa que fugisse deste caminho, por mais qualidade que pudesse ter não poderia ser aceite “nas ruas”. Tanto que a revolta do público foi bem sonora (como podem ver no youtube) É marmelada, é marmelada!* Ouve-se bem alto. O que é certo é que ao contrário do que o povo exigiu a canção do Vandré não ganhou e apesar de tudo o regime venceu.

Salvaguardando a distância temporal e todas as comparações forçadas que se possam fazer entre estes dois momentos. E me desculpem os camaradas de luta, salvaguardando também as diferenças entre os intervenientes num e noutro evento, parece que deve ser dito que o povo ajustou contas com a história. Se naquele tempo o júri escolhido era soberano, no caso de agora o júri teve de se aguentar com a resposta popular. A democracia, assim como outros regimes diga-se de passagem, tem destas coisas, li algures por aí, por vezes o povo outrora adormecido tem a capacidade e o poder de colocar o sistema em sentido. E mesmo quem sabe mudar o curso da História.

A todos os que ficaram revoltados com a vitória da luta só me apraz dizer-lhes que deixem passar esta vez. Festivais da canção há todos os anos e teremos provavelmente mais umas décadas para enviar cantores medíocres para figurarem nos últimos lugares das votações. Agora o tempo é outro. É tempo de protesto, é tempo de luta e de alegria, como dizem os camaradas. Mas também é tempo de reinventar um sistema, de reinventar um país, de trazer a esperança de volta à vida das pessoas e de construir um futuro digno para todos nós. Como se aprendeu ao longo da história, qualquer mudança política requer os seus símbolos. Já tínhamos os Deolinda, agora temos os Homens da Luta. Venham mais!

Boa sorte aos Homens da Luta em Dusseldorf! 

* um brasileirismo engraçado que quer dizer que o júri foi comprado ou obrigado pelo regime a não dar a vitória ao Geraldo Vandré que era nessa altura o hino do movimento estudantil.

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