E ainda sobre o 25 de Abril

27 Abr

Relembrar datas importantes pode ter por vezes enorme importância e há alguns casos onde grandes acontecimentos surgem precisamente no contexto de celebração de datas carregadas de simbologia. Veja-se por exemplo a importância da celebração da Tomada da Bastilha e do 24 de Março para a eclosão da crise académica de 62, lançando o rastilho para a crise de 69 e para o 25 de Abril. Infelizmente estas coisas não acontecem todos os dias. Combinar condições objectivas e subjectivas, como dizia o Marx, não se faz assim do pé para a mão.

Deste 25 de Abril não se esperava, é certo, grande alteração no panorama político, os tempos são outros, claro. Não há guerra colonial, o país já não é profundamente analfabeto e subdesenvolvido e o regime já não é violentamente opressor. Toda a possibilidade de mudança é agora canalizada para umas eleições que provavelmente não trarão mudança alguma. Adiante.

Surgem contudo algumas surpresas. Afinal Otelo e talvez alguns outros capitães começam a pensar se valeu a pena o esforço. Por seu lado, Mário Soares que ao lado dos seus camaradas de partido parece um tolinho a falar de socialismo e de capitalismo selvagem, começa a pensar se terá valido a pena o esforço do projecto Europeu. No campo das confirmações ficamos deleitados com mais uma bela entrevista ao camarada Jerónimo de Sousa. O seu lado humano cativa, é verdade, agora o seu conteúdo político só consegue encher o olho aos seus fiéis militantes. Ficou por saber a resposta a uma pertinente questão: “afinal para que serve o Partido Comunista?” Mas isso creio que nunca ninguém conseguirá explicar.

O melhor desta época do ano é sem dúvida o revivalismo histórico. Rever por exemplo o debate entre Soares e Cunhal e imaginar um entre Sócrates e Passos Coelho é como comparar uma Kastell blonde com uma cerveja Cintra. Rever os discursos do primeiro de Maio de 74 e compará-los com as encenações propagandísticas que são os congressos partidários de hoje em dia é como comparar um Gouda velho e bem seco com um queijo fatiado do Pingo Doce.

Mas infelizmente as diferenças não ficam por aqui. Se antes a formação politica era feita na clandestinidade, no exílio ou no movimento estudantil, hoje em dia ela é feita maioritariamente nas juventudes partidárias. O que se aprende e a forma como as pessoas adquirem valores e competências políticas é completamente diferente e talvez isto possa explicar em parte porque é que estamos onde estamos. Os políticos do pós 25 de Abril aprendem a política de bastidor. Nas jotas fazem cacique, traficam influências, distribuem lugares e obedecem ao chefe para subir na hierarquia. Óbvio que quando chegam a uma posição de poder, estes políticos vão apenas reproduzir aquilo que aprenderam ao longo da sua subida, ou seja: oportunismo e o carreirismo.

Não quero com isto dizer que seja precisa outra ditadura para que a formação política seja feita com base em valores, princípios, espírito de sacrifício e dedicação, mas também não me conformo com o “estado a que chegamos” e sem dúvida que é preciso mudar muita coisa. Os partidos não são, ou não deviam ser, escolas de oportunismo. Os partidos são apenas grupos de pessoas que têm ideias e interesses em comum e que se candidatam a determinados lugares. A forma como estes se organizam é que precisa de ser profundamente alterada. Os partidos tal como a sociedade têm de premiar o mérito. Não há volta a dar. Como é que podemos acabar com o oportunismo e o clientelismo da sociedade portuguesa se os partidos que dominam o aparelho de estado são precisamente as escolas desse mesmo oportunismo e clientelismo?

Há quem defenda a entrada em massa nos partidos para os influenciar. Há quem rejeite terminantemente ter qualquer coisa a ver com qualquer partido. Há quem consiga trabalhar em conjunto com partidos e há quem se afaste mal veja o mínimo sinal de partidarismo. Tornou-se uma praga, é verdade. Mas isto é tema para uma próxima reflexão. O que é relevante de dizer agora é que apesar das óbvias diferenças de contexto e de natureza problemática, o “estado a que chegamos” em 2011 merece toda a nossa inconformidade, toda a nossa revolta e todo o nosso esforço para o alterar.

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