Preconceitos de Abril

23 Abr

Na próxima segunda feira celebramos mais um aniversário da Revolução dos Cravos de 1974, desta vez sem cerimónia na Assembleia da República dada a sua dissolução.

Ao longo dos anos habituei-me a assistir a essa cerimónia pela TV. Entendo a sua importância como uma forma de imortalizar Abril e honrar os heróis da revolução e tantos outros que combateram a ditadura ao longo dos anos.

De Humberto Delgado a Aristides de Sousa Mendes, de Norton de Matos a Álvaro Cunhal, de Mário Soares e Salgado Zenha a Sá Carneiro e os seus colegas da Ala Liberal, muitos foram os que se bateram contra o Estado Novo, ousando desobedecer e lutar contra a ditadura e tudo o que de injusto ela acarretava: a censura, a opressão, a miséria, os presos políticos, a Guerra Colonial, etc..

Cansados da guerra e do “estado” a que tínhamos chegado, um grupo de jovens das forças armadas ousou avançar até Lisboa contra aqueles que durante 50 anos se acharam donos do destino de um país e das suas gentes. O falhanço desta ousadia implicaria consequências muito graves. De entre todos, sobressaiu um nome: Salgueiro Maia. A sua bravura, a sua coragem e a sua determinação foram os ingredientes principais para o sucesso da operação que permitiu devolver ao povo o poder que era seu por direito: o poder de decidir o seu próprio futuro.

Sem motivações políticas ou pessoais foi esse o seu único propósito e é isso que o torna também num símbolo mais puro de um dos momentos mais bonitos da nossa História recente.

Pergunto-me sobre o que pensaria Maia acerca “estado” a que chegamos. O que pensaria acerca da actual classe política. O que pensaria das cerimónias de fachada do 25 de Abril na Assembleia da República onde em vez de se exaltar o momento de libertação que foi a Revolução, se procuram fazer ataques partidários ou capitalizar, de forma oportunista, o descontentamento das pessoas e até mesmo os símbolos de Abril.

Posso dar o exemplo do cravo: nas sessões parlamentares, a nossa ala direita rejeita-o e procura afastá-lo indecentemente. A ala esquerda trata-o como sua propriedade privada (curioso!), muito provavelmente pela simbologia da cor vermelha, obviamente conotada com o socialismo e o comunismo.

Seria talvez importante perceber como o cravo se tornou no símbolo da Revolução. Naquele dia, o povo juntou-se ao Movimento das Forças Armadas nas ruas de Lisboa com um enorme sentido de solidariedade e de agradecimento pelo momento histórico que viviam. Foi então que num sentimento de alegria e de generosidade várias pessoas ofereceram aquilo que tinham. Maia conta numa entrevista que naquele dia foram oferecidos cravos vermelhos e brancos pelas muitas floristas que estavam nas ruas e houve até um senhor que veio para a rua com um presunto e uma faca para oferecer a toda a gente. No entanto, houve um qualquer fotógrafo comunista que decidiu apenas ressaltar o vermelho dos cravos para que a revolução fosse conotada com essa ideologia.

A revolução não foi feita para o partido A ou B. Sem ela, nenhum partido da extrema-direita à extrema esquerda existiria. A revolução foi feita para todo um povo que foi privado da sua liberdade durante meio século, independentemente das suas convicções políticas. Tentativas de capitalizar ou menosprezar algo que é de todos e para todos só podem ser encaradas como um preconceito que em nada contribui para a concretização dos mais altos ideais de Abril.

O ano passado, José Pedro Aguiar Branco fez um discurso muito oportuno acerca destes preconceitos que provocou risos irónicos e muitos incómodos em todas as bancadas parlamentares. Pena que o tenha feito com o objectivo de defender uma futura proposta de revisão constitucional que se veio a revelar despropositada e desadequada.

Que os partidos tenham diferentes princípios e diferentes concepções ideológicas é de salutar e só enriquece o país. Mas que  continuem a pôr os seus interesses partidários à frente dos interesses dos portugueses apenas porque tudo o que não é por nós é contra o país, isso é que já não é aceitável.

O tempo que vivemos exige compromissos e cedências mútuas que não impliquem a perda dos princípios que norteiam as nossas vidas. Sem vaidades pessoais ou interesses que não sejam os do próprio povo português. Tal como Salgueiro Maia nos mostrou há 37 anos atrás.

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