21 Abr

DR

Como diria Sérgio Godinho, hoje venho aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar e quanto mais eu penso, mais eu vejo que esta grande obra de reconstrução parece mas é uma acção de despejo.

Nacionaliza-se a dívida e privatiza-se o lucro. Acha-se a entrada do FMI inevitável e um mal menor. Abana-se a cabeça quando se noticia que esse mesmo fundo monetário internacional irá lucrar 520 milhões com Portugal, assim como os países europeus irão lucrar outros 1060 milhões. Dá-se razão ao discurso normativo e irrealista que são os trabalhadores que vivem acima das suas possibilidades. Não se sai à rua para reivindicar direitos porque “não resolve nada”, e até se remata com um “ide mas é trabalhar”.

Este descrédito social face ao corrompimento do poder e ao abuso financeiro e económico por parte dos bancos chega-me a dar vontade de ir para a rua gritar contra o povo. Infelizmente, esse estigma de impotência e auto-flagelo não é novo, é quase inevitável e involuntário, é fruto desta crise política internacional que nos faz crer na culpa individual e colectiva dos cidadãos/ãs trabalhadores/as, estudantes, reformados/as, precários/as e desempregados/as. Senão, porque estaria um Estado, ou até uma cambada de reguladores financeiros internacionais que teoricamente percebem tanto do assunto, a tirar o dinheiro do bolso dos/as portugueses/as se não fomos nós a criar esta crise?

A verdade é que não fomos. Mas somos nós que pagamos pelos erros dos bancos. Porquê? Porque somos governados/as pelos mercados; já não somos pessoas, somos números, estatísticas, variáveis de um rating qualquer feito pelos maiores bancos mundiais.

Faz sentido pagarmos pela dívida portuguesa? Não. 75% da dívida externa pertence aos privados e 25% ao Estado. A culpa do decrescimento económico é nossa? Não. Os grandes grupos económicos portugueses pertencem a sectores não-transaccionais, isto é, sectores que impossibilitam exportações; por exemplo: luz, água, etc.

O FMI injectará dinheiro na banca, mas isso não combate o endividamento, como é lógico. O endividamento somente desaparecerá com um salto económico, o que acontece através de emprego e criação do mesmo, com evolução nas empresas nacionais e nas exportações, ao invés de importações.

Nunca se resolverá a situação desgastante da economia portuguesa retirando dinheiro aos/às portugueses/as. Mas isso até uma criança de 7 anos consegue perceber, não? Vejamos… Descemos os salários e aumentamos os preços, logo, descemos a procura e o poder de compra. Como cresce uma economia sem poder de compra? Não cresce. Aumenta a recessão. Aumenta a pobreza. Aumenta a precariedade. Aumenta a emigração. Perdemos crescimento económico. Perdemos poder de compra. Perdemos salários e ajudas sociais. Perdemos subsídios. Perdemos trabalhadores e postos de trabalho. Entramos numa crise política, económica e social sem fim.

Na Islândia, o povo disse “NÃO” ao pagamento da dívida da banca e está em processo a condenação a pena de prisão dos seus banqueiros. Na Grécia, o povo continua a lutar contra as políticas do FMI que os empurram para este novo panorama de trabalho que quase se consegue intitular como “nova escravatura”.

E nós, que fazemos? Vamos deixar que esta intervenção internacional nos sugue a vida e nos coloque sob uma política austera e autoritária onde o capital se protege mais que a vida humana?

Não podemos aderir à apatia, acabemos com ela! A realidade não é estática, nem inevitável. A realidade molda-se e revoluciona-se.

Eu amanhã posso não estar aqui mas também, para o que eu aqui repeti… É que eu não sou o único que acho que a gente o que tem é que estar unida.

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