É do aiémefe?

20 Abr

Está? Está? O quê? Fale lá português homem que eu cá não percebo nada de estrangeiro… Ah, bom dia, óptimo, vê como consegue quando quer. Vocês, os estrangeiros, pensam que toda a gente vos deve entender na vossa língua. Eu cá não gramo essas coisas, querem falar comigo, que falem em português, pois quando fui a Espanha ninguém tentou compreender o que eu dizia. É assim, olho por olho, dente por dente. Quem é que os estrangeiros pensam que são? Prontos, diga lá… Quer falar com o Sr. Ministro? Está com azar, ele está em reunião. Não, não pode atender, quer deixar recado? É urgente? Ora que coisa, você sabe para onde está a ligar? Aqui quem decide a urgência somos nós. Ah, já tentou ligar várias vezes antes? Olhe, paciência, é que tive de sair. A minha nora esta desempregada coitadinha e fui tomar café com ela para a consolar. É uma pena sabe, ver estes jovens assim nesta situação… Que país o nosso… Não sei como é no seu país. Já agora, de onde é que fala? É do aiémefe? Não sei onde isso fica. Isso é um país? Não conheço, nunca fui boa a geografia… Está cá para ajudar? Óptimo, isso é que é preciso, sabe que as coisas por aqui não estão nada fáceis e toda a ajuda é bem-vinda. Principalmente para os mais novos, coitadinhos, sabe no meu tempo não era nada assim. Eu entrei aqui com a 4 classe. O meu pai era amigo de uma pessoa influente e conseguiu-me este trabalhinho. Não ganho mal e tenho a reforma garantida, coisa que parece que é para acabar pelo que ouvi nas notícias. O chato aqui é que às vezes obrigam-nos a ir a uns cursos… Mas eu não quero saber disso, vou lá porque me obrigam e porque subo na carreira, mas nem sequer ouço, mesmo que quisesse acho que nem compreenderia, computadores, línguas, que complicação… Agora hoje em dia já não é assim. Aparecem aí muitos jovens a pedir trabalho e não há nada para ninguém. Até aparecem alguns bem-vestidos e bem-falantes a dizer que têm um douto qualquer coisa. É uma pena sem dúvida. E depois têm de ir para fora e só ficam cá os poltrões, gente que não sabe trabalhar, que não se esforça, que só arranja trabalho com cunhas. Os que não têm cunhas fazem manifestações. Onde é que já se viu… Sabe, ainda outro dia estava aqui uma confusão porque parece que o governo tombou e havia muita gente para meter antes que corressem com eles daqui… Eu não me preocupo, qualquer que seja o governo eu apoio-o. Pois, não podemos cuspir em quem nos dá a mão… Eu cá voto no Senhor Engenheiro, mas se o outro ganhar também não me importo, tem boa cara o mocinho e dizem que é de uma família humilde. Espere! Que falta de respeito, não vê que estou ao telefone? Desculpe, estava aqui alguém, estava eu a dizer… Quando pode falar com o Sr. Ministro? Já lhe disse que está em reunião, vai ter de aguardar. Prontos, ligue mais tarde que eu agora tenho de sair, não posso passar o meu tempo todo ao telefone, tenho hora marcada no cabeleireiro. Sim, eu deixo o recado. Urgente, urgente, não lhe posso garantir, toda a gente diz o mesmo, se eu fosse a ligar a isso estava feita, mas eu garanto-lhe que faço uma forcinha. Bem, bom dia, tudo de bom para si e para os seus e haja saudinha… Diga lá, não viu que eu estava ao telefone? Esta gente… Outro a falar estrangeiro? Que mania, isto aqui não há nada para ninguém, não percebo este interesse todo em Portugal, desculpe lá mas eu cá só falo na minha língua. Da União Europeia? Vê como consegue quando quer. Sabe, um dia fui a Espanha… Esta cá para falar com o Sr. Ministro? Lamento mas vai ter de aguardar, ele está em reunião. Sabe…

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